Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 15/07/2020

A fluidez informacional e a cibercondria

No filme “Madagascar”, da “DreamWorks”, é retratada a vida de um grupo de animais do Zoológico de Nova York, entre eles, Melman, uma girafa hipocondríaca. Nesse sentido, a narrativa exibe o número exagerado e desgastante de medicamentos e consultas a que esse personagem se subjuga. Esse fato relaciona-se ao Brasil atual, visto que há um novo problema relacionado a essa preocupação excessiva com a saúde: a cibercondria. Sendo assim, faz-se mister entender como a fluidez informacional advinda da internet é propulsora dessa doença e quais as consequências disso para a sociedade.

Em primeiro plano, a web impulsiona a cibercondria por banalizar o saber. Diante disso, há a Terceira Revolução Industrial, que consolidou a informática no mundo e expandiu a difusão cultural, feita por intermédio das plataformas digitais. No entanto, essa liquidez do conhecimento contribui para a criação de um ideário popular que impõe ao ciberespaço a condição de detentor universal do saber. Esse fato faz, por exemplo, com que diversas pessoas acessem sites de busca a fim de obter possíveis diagnósticos médicos a partir de sintomas comuns a muitas doenças, como a dor de cabeça. Dessarte, o servidor lista uma série de plausíveis patologias relacionadas ao sintoma em questão, desde as mais simples e comuns às mais complexas e fatais, o que gera pânico e acarreta a hipocondria.

Dessa forma, a cibercondria, associada ao incontrolável fluxo informacional, pode causar prejuízos ao bem-estar social. Isso ocorre porque, ao promover o medo, essa patologia faz com que os portadores busquem, na própria internet, a solução para os supostos distúrbios que apresentam, tornando, portanto, recorrentes as práticas de automedicação. Nesse contexto, menciona-se o vídeo viral de Maria da Paz, no qual a youtuber, sem formação na área da saúde, executa uma receita de um laxante natural, levando pessoas que reproduziram o processo a quadros de diarreia aguda. Logo, é evidente que a hipocondria, aliada à fluidez da era digital, transforma-se em um fator perigoso à saúde pública.

Por conseguinte, medidas hão de ser tomadas a fim de conter o avanço da cibercondria. Primeiramente, o Ministério da Saúde deve criar plataformas de atendimento médico gratuito e online, como é feito pelo projeto “Missão Covid”. Isso seria possível por meio da parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e asseguraria atendimento profissional especializado na web, reduzindo a nosomifalia. Ademais, o Ministério da Educação, a partir da cooperação com escolas, precisa promover palestras educacionais que despertem o senso crítico da população acerca dos perigos relacionados à automedicação, reforçando a importância do Dia Nacional de Uso Racional de Medicamentos. Desse modo, garantir-se-ia uma vida distante daquela de Melman em “Madagascar”.