Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 19/11/2020
A série “O gambito da rainha”, da plataforma de streaming Netflix, aborda o uso indiscriminado de medicamentos feito pela protagonista. Na realidade brasileira, infelizmente, a situação é análoga, uma vez que a ansiedade em cuidar da saúde conduz boa parte da população às buscas de autodiagnostico e automedicação on-line. Nesse eixo, deve-se analisar como a indução à compra de fármacos e a acomodação da sociedade em checar a veracidade de informações influenciam no agrave da cibercondria.
Em primeira análise, deve-se pontuar o autodiagnostico, mediante buscas on-line, cada vez mais recorrente. De acordo com a tese elaborada pelo filósofo brasileiro Leandro Karnal, na contemporaneidade vive-se a era da pós-verdade, que compreende uma sociedade que não averigua as informações acessíveis à ela. Nesse viés, as buscas na internet, baseadas em sintomas, acerca do estado de saúde levam, conforme a ideia de Karnal, ao autodiagnostico, ocasionando a automedicação e o retardamento no diagnóstico e no tratamento correto. Dessa forma, faz-se essencial reduzir os diagnósticos feitos por pesquisas em sites não confiáveis.
Além disso, cabe ressaltar a indústria farmacêutica. A esse respeito, o pensador francês Pierre Bourdieu abordou, em sua obra “O poder simbólico”, a força de persuasão e convencimento que os meios midiáticos exercem sobre os indivíduos. Com efeito, a cibercondria apoia-se na indústria de medicamentos, investidora massiva de propagandas de medicamentos que contêm linguagem apelativa - como a descoberta de um remédio milagroso, provocando, consoante Foucault, a compra de fármacos indiscriminada e tornando-a banal. Visto isso, cabe ao Estado promover campanhas publicitárias que evidenciem os malefícios da automedicação.
Infere-se, portanto, a necessidade de minimizar a cibercondria no país. Logo, cabe ao Poder Público, por meio do CONAR, garantir aos indivíduos informações sobre os riscos da automedicação, como a hipocondria e a camuflagem do diagnóstico preciso, mediante propagandas midiáticas, com o fito de mitigar a banalização da automedicação. Ademais, é dever dos sites de buscas on-line, por exemplo o Google e o Yahoo, evidenciar os riscos da cibercondria, por meio de anúncios de alerta sobre os seus malefícios ao serem detectadas pesquisas relacionadas ao estado de saúde, a fim de reduzir o autodiagnostico. Dessa maneira, o Brasil poderá combater a cibercondria.