Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 26/11/2020
Segundo José Saramago, escritor português, há uma cultura de banalização na sociedade, no qual tudo é banal e sujeito ao consumo. Sob tal ótica, é possível associar isso ao contexto atual da cibercondria, em que, por causa da enorme praticidade e rapidez das pesquisas na internet, ocorre a banalização de doenças e da necessidade das consultas médicas. Dessa forma, o fácil acesso aos remédios contribui no aumento dos casos de cibercondria e, assim, a automedicação apresenta uma grave ameaça aos cidadãos, pois ocasiona sérios riscos de saúde.
A priori, o aumento nos casos de cibercondria tem relação direta com a facilidade em que se pode obter remédios. Destarte, conforme números fornecidos pela Interfarma, nos últimos quatros anos, houve o aumento de 42% nas vendas de remédios em farmácias. Esse aumento é resultado de uma combinação entre automedicação, acesso facilitado, consumo excessivo e cibercondria, visto que, segundo uma pesquisa realizada pelo Estadão Saúde, o Brasil lidera crescimento das buscas por temas de saúde no google, com 26% dos brasileiros recorrendo primeiro à internet ao se deparar com um problema de saúde. Isso demonstra, portanto, como a facilidade da obtenção de remédios sem prescrição se conecta com o aumento dos casos de hipocondria.
Além disso, outro aspecto a ser abordado é que a automedicação, impulsionada através de pesquisas na internet, ocasiona sérios riscos à saúde. A série “Dr. House”, estreada em 2004, retrata a vida pessoal e, principalmente, profissional de Gregory House, um médico que, ao sofrer um acidente, inicia um longo processo de automedicação, pois ele havia ficado viciado com o analgésico utilizado para diminuir a dor. Assim, é possível entender os riscos que a automedicação pode ocasionar, já que, além da enorme ameaça de viciar, a ingestão de alguns remédios ou a sua junção com outros pode levar o indivíduo à morte. Dessa maneira, de acordo com dados da Abifarma (Associação Brasileira das indústrias Farmacêuticas), cerca de 20 mil pessoas morrem, anualmente, vítimas de automedicação no Brasil, o que demonstra o quão séria é a problemática abordada.
Portanto, a automedicação impulsionada pela cibercondria apresenta uma ameaça concreta, não somente aos indivíduos diretamente envolvidos, como a todos os cidadãos que, indiretamente, também figuram como vítimas de seu legado. Nesse sentido, a Secretária da Saúde deve dificultar a compra de remédios sem prescrição nas farmácias, por meio da inserção de protocolos que os farmacêuticos deverão seguir, como uma série de perguntas referentes a necessidade da obtenção dos fármacos requeridos. Espera-se, com isso, que ocorra a constante diminuição dos casos de hipocondria e que a sociedade brasileira recorra, primeiramente, ao atendimento médico e não à internet.