Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 27/11/2020
“Uma das características da cultura é tornar normal o que não é”. A afirmação atribuída ao historiador brasileiro Leandro Karnal simboliza claramente a cibercondria, já que é justamente a normalidade com que a sociedade trata essa questão - praticando-a no dia a dia ao acreditar no famoso “Dr. Google” ao pesquisar sintomas na internet, sem se importar de ir ao médico - que a cristaliza como uma problemática. Assim, observa-se que tal situação tem como origem a negligência acerca desse assunto. Logo, esse cenário é aprofundado pela volatilidade informacional da era tecnológica, e, consequentemente, pode até causar mais problemas de saúde que acabam piorando o quadro real.
Sobre esse assunto, é preciso tratar a cibercondria como a doença da era digital por conta da naturalidade com que as pessoas tratam o processo de automedicação. Nesse contexto, esse processo vem sendo uma prática bastante comum em muitos países, visto que, pela falta de uma estrutura adequada no sistema de saúde pública e com planos de saúde absurdamente caros, uma pesquisa rápida na internet e uma ida à farmácia são a primeira, e mais prática, opção. Desse modo, vale destacar que esse caminho é favorecido pela atual legislação, que permite a propaganda em TV aberta de medicamentos classificados pelo Ministério da Saúde como paliativos e de venda livre.
No entanto, esse medo excessivo e irreal que algumas pessoas manifestam ao apresentar alguns sintomas, unido à modernidade, faz com que a automedicação dificulte o diagnóstico médico, o que pode levar a um agravamento do quadro. Primeiramente, é válido destacar os dados do Conselho Federal de Farmácia de que a automedicação é feita por 77% dos brasileiros e de que os medicamentos são o principal agente causador de intoxicação no país. Com efeito, o uso de medicamentos de forma incorreta pode acarretar na piora de uma doença, uma vez que a utilização inadequada pode esconder determinados sintomas. Ademais, também destaca-se como um problema o aumento da ansiedade desnecessária nas pessoas, por confiarem cegamente nas informações, muitas vezes falsas, do Google, e começarem um tratamento para uma doença que nem apresentam.
Mediante o exposto, é inegável que a cibercondria pode ser uma “doença” muito perigosa, e, portanto, é fundamental que sejam criadas medidas para solucionar essa vicissitude. Para isso, é preciso que o Conselho Federal de Medicina, em conjunto com os veículos de mídias digitais, realizem campanhas a fim de informar a população sobre o risco da automedicação. Além disso, o Ministério da Saúde, por meio da Anvisa, deve fiscalizar as farmácias que vendem remédios sem receita, por meio do controle dos medicamentos. Destarte, espera-se que as pesquisas sobre saúde no “Dr. Google” sejam problematizadas para superar o emblema normalizado dessa ação.