Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 29/11/2020
O personagem do autor Machado de Assis, chamado Brás Cubas, em sua história admitiu não ter passado legados da “nossa miséria”, já que não teve herdeiros. Uma das principais críticas à burguesia é a sua grande preocupação sobre sua imagem, conduta e corpo, segundo a escola literária realista. De forma parecido, a cibercondria é uma condição de extrema preocupação, com base em informações na internet, acerca da ideia de se ter uma doença grave. Esse mal da era digital é, sobretudo, reflexo das mudanças comportamentais causadas pelos fenômenos das sociedades líquidas e da cibercultura.
Primeiramente, a cibercultura mudou os padrões de comportamento acerca do acesso à saúde. Apenas vinte e cinco por cento dos brasileiros possuem planos de saúde, segundo dados divulgados pelo IBGE, ainda que setenta por cento dos mesmos tenham acesso à internet. Sendo assim, a maioria da população necessita de um sistema público de saúde ineficaz devido à sua alta demanda em hospitais, UPAs e postos de saúde - fato que põe em xeque a busca por um profissional para a resolução de doenças. Assim, principalmente para as classes C, D e E, a internet é o primordial meio de acesso à informação médica, a qual, infelizmente, nem sempre está correta nos sites. Tal realidade é impulsionadora do problema da cibercondria, uma vez que o conhecimento médico (restrito à uma pequena parcela da população) é sinônimo de temor e insegurança para esses indivíduos.
Segundamente, a hipocondria cibernética está relacionado aos problemas mais recorrentes das sociedades vigentes, são elas, ansiedade e depressão. Dessa maneira, o sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro “Amor Líquido”, fala que as relações pós-modernas estão superficiais, voláteis, fáceis de se quebrar. Dessa forma, os transtornos de ansiedade e depressão surgem diante da liquidez das relações primordiais. Assim, tais transtornos no espaço cibernético possuem uma “nova roupagem” através do fenômeno da cibercondria, pois, assim como a ansiedade é um mal que se preocupa obsessivamente com a possibilidade de coisas futuras, a cibercondria representa uma preocupação excessiva com a eventualidade de se ter uma doença grave.
Portanto, a enfermidade da era digital é o produto do disfuncionamento contemporâno nos âmbitos sociais e mentais. Em suma, é responsabilidade do Ministério da Saúde (MS), que façam, por meio de propagandas e difusão de informação, possuírem as condutas necessárias ao se navegarem na internet para terem ajuda médica, assim tendo a garantia acerca da cibercondria. Dessa forma, necessita-se abaixar os impactos que a ansiedade impõe aos indivíduos, os quais, assim como Brás Cubas, limitam-se de novas experiências devido à excessiva preocupação com formas de agir e pensar banais, com o objetivo de tornar a hipocondria cibernética um problema superado.