Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 02/12/2020

O seriado “The act” retrata a história de uma mulher que induz a filha a acreditar que possui diversas doenças e a realizar tratamentos, caracterizando a síndrome de Munchausen. Infelizmente, esse contexto não se restringe a ficção, uma vez que apesar dos avanços tecnológicos terem gerado benefícios à conjuntura hodierna, surgiram problemas decorrentes dessas inovações, como a cibercondria. Diante disso é necessário analisar a postura da sociedade e a negligência do governo. Em primeira análise, observa-se a inconsequente busca por soluções rápidas, inclusive no que tange à medicina, contribuindo para a hipocondria cibernética. Conforme o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade ingressa em um modelo imediatista prioriza o tempo em detrimento da qualidade. Essa conduta apressada é percebida quando pacientes se automedicam baseados em diagnósticos que encontram na internet, visto que a resposta é quase imediata. No entanto, apesar de demorados, os exames ambulatoriais evitam complicações, por exemplo efeitos colaterais de remédios e piora do quadro clínico, além disso, o paciente pode acreditar que apresenta sintomas sem realmente tê-los. Desse modo, a busca por informações online não pode substituir o atendimento médico.

Ademais, outro aspecto a ser considerado é a contribuição da precariedade da rede de atendimento aos doentes para a psicose técnico-informacional. De acordo com o artigo 196 da Constituição Federal de 1988, a saúde é direito de todos e dever do Estado. Entretanto, tal obrigação não é cumprida, uma vez que uma parcela da população procura soluções para mazelas em sites de pesquisa, muitas vezes, pela baixa disponibilidade de serviços médicos. Isso é resultado das precárias ações governamentais, porquanto faltam médicos, materiais e, em alguns casos, a distância até os hospitais é muito longa. Essa tentativa de elucidar enfermidades sem assistência especializada pode desencadear uma obsessão por patologias. Desse modo, é preciso garantir um atendimento de qualidade à toda comunidade.

Evidencia-se, portanto, que o imediatismo e o descaso estadual corroboram ao distúrbio da era digital. Por isso, cabe a mídia, por intermédio de canais abertos de televisão, promover ficções engajadas como filmes e novelas, com a finalidade de alertar a população sobre os riscos de se diagnosticar utilizando apenas a internet, sem a ajuda profissional. Outrossim, é dever do Ministério da Saúde, por meio de parcerias público-privadas, recrudescer a infraestrutura desse serviço, como uma maior oferta de hospitais, de médicos e de materiais, com o fito de garantir o atendimento adequado ao povo. Assim, é possível diminuir situações como a apresentado no seriado “The act”.