Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 23/09/2021
Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterados a menos que forças externas suficientes ajam sobre ele, sobressaindo sua inércia. Esse é o hodierno cenário da doença da era digital, a cibercondria: uma inércia que perdura em detrimento dos benefícios que a internet trouxe, em contrapartida ao uso mal direcionado dela. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.
Vale ressaltar, a princípio, que o escritor austríaco Stefan Zweig alegou, em sua obra “Brasil, País do Futuro”, que grandes inovações tecnológicas e sociais seriam efetivados na nação, o que realmente foi evidenciado com o advento da internet e de smartphones de última geração. Tal conquista proporcionou a conexão instantânea em todos os continentes do mundo, possibilitando o acesso a qualquer tipo de informação de maneira rápida e prática. Ademais, livros, pesquisas, artigos científicos, notícias ao vivo de tudo que ocorre ao redor do globo, exames online estão disponíveis no amplo espaço cibernético a qualquer momento, êxito jamais visto anteriormente.
Sob outro prisma, faz mister salientar que Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, alegou em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria. Possivelmente, hoje, ele perceberia quão certeira foi sua decisão: o atual panorama comportamental em que pessoas passam a tirar conclusões precipitadas e pouco embasadas relacionadas à saúde, a partir de buscas rápidas na internet é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Outrossim, tais indivíduos que apresentam algum tipo de dor, desconforto ou sensação estranha, realizam pesquisas em sites de busca para descobrir do que se trata, chegando, na maioria das vezes, a se automedicar com base nas sugestões expostas em sites e blogs, que são, majoritariamente, desprovidos de conhecimento científico, o que pode piorar o quadro do usuário e trazer enfermidades associadas ao uso indiscriminado de medicamentos.
Destarte, forças externas devem tornar efetivas, vencendo a inércia proposta por Newton. Dessa forma, o Ministério da Saúde deve discorrer sobre a compulsão de se autoconsultar e automedicar, por intermédio de palestras educacionais e debates televisivos, ministrados por médicos e psicólogos, para romper tal vício, a fim de que a sociedade procure profissionais habilitados à diagnosticar e tratar suas enfermidades. Somente assim, alcançar-se-á um corpo social menos alienado e mais saudável, pois como referido por Karl Marx: “as inquietudes são a locomotiva da nação”.