Combate ao assédio moral no trabalho

Enviada em 29/06/2021

A narrativa trágica “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, sugere ao leitor “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Ao seguir essa sugestão, como ponto de partida para fomentar discussão sobre o combate ao assédio moral no ambiente de trabalho, é necessário encarar a realidade e questionar a forma como vemos o assédio moral. Assim, não há dúvidas de que é preciso refletir sobre em que cenário o assédio moral é praticado, bem como repensar acerca da forma como o combatemos.

Nessa perspectiva, é preciso ressaltar que o assédio moral é uma prática muito comum, em razão de ser um tipo de exploração de vulneráveis. Aliás, não se pode negar que o tipo mais comum dele é o hierárquico, pois funcionários de alto escalão abusam de sua autoridade para com seus subordinados. Em função disso, ganha força a ideia de que é preciso, parodiando a ideia de Saramago, buscar a compreensão, quando a razão deixa de ser o norte do comportamento dos indivíduos. Isso significa que, com relação à forma que se trata esse tipo de comportamento, não é prudente mantê-la, uma vez que ao se negligenciar essas atitudes, se está, de certa maneira, as incentivando. Dessa forma, fica claro que o assédio moral é tão comum em nossa sociedade que ignorá-lo já se tornou algo normal.

Além disso, convém lembrar que a forma como lidamos com os casos de assédio moral é ineficaz, em virtude da visão distorcida que a própria população tem acerca do tema. Inclusive, pode-se afirmar que os verdadeiros responsáveis não são punidos, na medida em que eles são blindados pelos altos cargos que ocupam. Assim, ao lançar olhar sobre a realidade, verifica-se a forma errônea com que se combate esse dilema, ou, como sugere Zygmunt Bauman, os atores sociais, condenados à cegueira moral, tendem a agir na irracionalidade. Isso porque, as leis que combatem o assédio moral estão fadadas a falhar, em razão do fato delas serem formuladas por aqueles que o praticam. Logo, constata-se que as leis, da forma que estão, na prática não tem utilidade alguma.

Por efeito dos fatos supracitados, constata-se que iniciativas precisam ser tomadas para resolver o dilema. Dessa forma, é imprescindível que o Governo Federal desenvolva uma campanha publicitária, com o propósito de educar, alertar e diminuir a ignorância da população acerca do tema. Ademais, cabe ao Poder Judiciário estabelecer como meta reformular as leis de proteção ao assédio moral a partir de análises de situações reais, a fim de evitar leis sem efeito e novos casos dele. Com essas iniciativas, espera-se que o combate ao assédio moral seja aprimorado no Brasil.