Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 15/02/2020

“Corta para mim” foi um jargão que ficou conhecido nacionalmente e foi criado pelo jornalista Marcelo Rezende, em seu programa “Cidade Alerta”. Quando ele falava essa frase, normalmente interrompendo alguma reportagem, era o momento em que proferia discursos sensacionalistas e incentivava sentimentos de revolta nos telespectadores frente à brutal criminalidade das grandes cidades. Nesse contexto, analisa-se como a mídia pode incitar a violência e como isso contribui para a desordem social, além de romper com a ética jornalística.

A princípio, é preciso ressaltar que tal discurso acentua a sensação de insegurança da população. Sob essa perspectiva, quando os âncoras de televisão exploram casos de violência de maneira irresponsável, a mensagem que eles passam é que não há a quem recorrer, pois as instituições como o Estado e a Polícia Militar não cumprem eficientemente seu papel. Logo, a justiça com as próprias mãos é a única alternativa. Nesse sentido, a mídia contribui para o estado de “anomia”, proposto pelo sociólogo Émile Durkheim, no qual as instituições têm dificuldade de regular comportamentos e prevalece a desordem social. Depreende-se, então, que, ao adotar essa postura, a mídia gera mais terror e insegurança nas pessoas.

Somado a isso, convém salientar que, em nome da audiência, os princípios do jornalismo ético são rompidos. Dentro desse espectro, programas como o “Cidade Alerta”, da Rede Record, ou o “Brasil Urgente”, da Band, possuem âncoras que proferem discursos claramente parciais, nos quais provocam os telespectadores, abusam de suas emoções e manipulam seus pontos de vista, tudo em função da audiência. Nessa lógica, o linguista Noam Chomsky aponta que, munida da manipulação, a mídia corrompe a opinião pública. Consequentemente, tendo em vista seu poder de formar opiniões, ela incita a violência e fere o Estado Democrático de Direito.

Fica claro, portanto, que o discurso sensacionalista adotado por alguns programas midiáticos é prejudicial para a ordem pública. Por conta disso, a Anatel - Agência Nacional de Telecomunicações - deve criar um Programa de Responsabilidade Semiótica a ser seguido por todas as emissoras de televisão. Tal programa contará com uma série de diretrizes, as quais incluirão termos e posturas inadequados à oratória jornalística, bem como treinamentos disponibilizados aos novos âncoras, sob risco de multas pagas por aqueles que desrespeitarem as normas, a fim de priorizar o discurso responsável e imparcial. Assim, a ética no jornalismo prevalecerá e a incitação à violência não estará mais presente na emissão televisiva.