Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos
Enviada em 20/02/2020
Com alguma frequência são noticiados casos de linchamentos a supostos criminosos. Não raramente, descobre-se que os linchados não eram culpados. Os justiçamentos são, em grande medida, estimulados pelos noticiários policiais que, diuturnamente, insinuam que há morosidade excessiva do Poder Judiciário e que o Código Penal Brasileiro é muito benevolente.
De início, vale ressaltar que os constantes comentários acerca da aparente lentidão processual brasileira feito por apresentadores de noticiários sobre criminalidade suscitam o sentimento de indignação nos telespectadores, que acabam sentindo-se desamparados pela Justiça. Influenciados por esse tipo de entretenimento, muitos brasileiros chegam a apoiar a tortura e execuções sumárias, além da pena de morte.
Além disso, segundo a socióloga Esther Solano, existe no senso comum nacional manufaturado pelas mídias, a falsa noção de que as leis são muito brandas e que isso estimula a criminalidade. Essa noção pode ser sintetizada no trocadilho “Direito dos Manos”, que dá a entender que as leis só beneficiam àqueles a sua margem. Assim, achando que não podem contar com os mecanismos estatais de justiça, muitos cidadãos sentem-se compelidos a praticar a violência como único meio de acesso à justiça.
A minoração dessa problemática passa, portanto, pela regulação dos programas de televisão com foco em criminalidade. Para tanto, o Governo Federal deve, por projeto de lei, elaborar regras que limitem o alcance desse tipo de jornalismo e de suas implicações. Por exemplo, restringir a faixa horária de exibição desses programas de onze da noite às cindo da manhã. Também devem ser punidos, nos termos da lei, os apresentadores que incitem o descumprimento da lei e a violência. Dessarte, os casos de linchamentos e episódios de justiçamentos, certamente, diminuirão, pois a influencia midiática nesse tipo de prática terá sido atenuada.