Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos
Enviada em 09/03/2020
Milton Santos, em sua obra: “Por Uma Outra Globalização”, relata que vivemos em um mundo confuso e confusamente percebido. Nesse sentido, é ante a noção turva de justiça anexada à camada populacional que atos como a justiça com as próprias mãos permanecem como problema histórico. Isso se deve, por sua vez, tanto pela ótica violenta e sensacionalista em que a mídia apresenta as relações sociais ao povo, quanto pela comum associação de justiça a valores passionais e efêmeros.
Destarte, em primeiro lugar, ao passo em que programas televisivos supervalorizam certo tipo de relação humana, o caráter informativo se torna incitatório. Com efeito, a excessiva demonstração de diversos modos de violência pode gerar a nível coletivo, uma noção de guerra de todos contra todos e, no âmbito individual, intensa sensação de insegurança no indivíduo. Em decorrência disso, o conjunto populacional pode vir a pautar suas decisões no terror, buscando alternativas de justiça imediata.
Em segundo lugar, nas palavras de Aristóteles, “a política deve ser usada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado”. A este ponto, ao passo em que a população, ao consumir conteúdos que visam meramente o apogeu da audiência em detrimento de responsabilizações por evocar emoções de ódio ao público, a sociedade, cada vez mais se sente desamparada, resolvendo, por vezes, fazer seu próprio julgamento ao fato, desequilibrando a justiça. A exemplo, em 2018, indígenas cujas tradições foram erroneamente expostas pela emissora “Record” tiveram sua imagem e reputação violadas.
Assim, frente ao impasse existente entre a mídia que incita a violência e a noção popular de desamparo pela justiça, medidas devem ser tomadas. A esse espectro, inicialmente cabe à Secretaria da Cultura, na finalidade de proibir conteúdos ofensivos e de tons apelativos, baixar portarias que, junto a iniciativas de lei que fixe multas à prática da incitação ao ódio, poderão minimizar essa ação. Paralelo a isso, caberá ao Ministério da Educação inserir na grade curricular da matéria de filosofia do ensino médio, o estudo dos conceitos de justiça, a fim de que os pueris se tornem adultos conscientes de que o ódio vai de encontro à efetividade da justiça.
Haja vista, portanto, a crescente desvirtuação da finalidade da mídia, tendo em vista sua adequação mercadológica, somada aos interesses organizados em cascatas que geram revolta ao povo pelo medo ao que é aparente, a justiça com as próprias mãos persistirá na sociedade. Entretanto, tomadas as medidas aludidas, o primeiro passo para o melhor convívio social será alçado e, por conseguinte, a diminuição de crimes travestidos de justiça. Só então, a visão turva do povo outrora exposta por Milton Santos, poderá, pelo equilíbrio entre justiça, política e mídia, se tornar límpida.