Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 17/03/2020

“O que foi criado como instrumento de democracia não pode se tornar mecanismo de opressão”. Essa frase do sociólogo Pierre de Bordieu é muito pertinente quando se trata da incitação à violência por parte da mídia brasileira, uma vez que não só a falta de conscientização pelos veículos midiáticos, mas também a insuficiência política, se apresentam como principais fatores para a perpetuação desse problema no Brasil. Dessa forma, medidas são necessárias para reverter este quadro.

Em primeiro lugar, é fundamental destacar que para o filósofo Leandro Karnal “A mídia tem como função social levar a informação, promover o debate e formar opiniões”. Certamente há uma linha tênue entre “formar opiniões” e incitar a violência, visto que programas como “Cidade Alerta” claramente não se posicionam de forma imparcial, o que pode influenciar a população a fazer justiça com as próprias mãos. Além disso, é válido ressaltar que nesse cenário existe um fenômeno denominado “Comportamento de Manada” que pode ser definido como a tendencia das pessoas em seguirem um grande influenciador, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual.

Ademais, é importante lembrar, ainda, que para o filósofo Aristóteles " A política tem como base promover o convívio harmônico entre as pessoas de uma sociedade". Entretanto, o que se verifica no Brasil, em relação à mídia, é a inexistência de leis que impeçam a propagação da incitação à violência, o que configura a evidente ineficiência política. Além disso, segundo uma pesquisa realizada pela BBC, cerca de 75% da população considera-se influenciada por programas televisivos, o que releva a grande responsabilidade que a mídia tem sobre a sociedade. Por isso, existe a necessidade de haver uma união alicerçada entre política e mídia de modo a valorizar o convívio social.

Dessa maneira, entende-se que é primordial que a mídia possa ter consciência do seu papel social, por meio de campanhas nacionais de sensibilização, que defendam a imparcialidade e o profissionalismo, por intermédio de seminários e palestras, com sociólogos e psicólogos, dentro de emissoras e de instituições de ensino superior, principalmente nos cursos de jornalismo e ciências sociais, uma vez que, grande parte do futuro da mídia virá dessas Escolas. De maneira análoga, urge que o Governo combata a ineficiência política, por meio da criação do Estatuto da Mídia Nacional, que visa organizar um conjunto de leis e condutas a serem tomadas pelos veículos midiáticos, para que, como defendido por Pierre de Bourdieu, a mídia não se torne mecanismo de opressão.