Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos
Enviada em 04/04/2020
De acordo com o escritor alemão Goethe, não há nada mais assustador que a ignorância em ação. Tal pensamento justifica a falta de conhecimento da sociedade em relação às leis penais brasileiras somada à influência da mídia no desejo do cidadão querer fazer justiça com as próprias mãos. Nesse contexto, sobressaem-se dois principais agravantes: a estigmatização das pessoas e a inversão de valores ao associar bandidos a heróis.
Em primeiro lugar, os programas televisivos, em busca de audiência, denunciam, processam e executam sua sentença sem respeitar o princípio de presunção da inocência explícito na Constituição Federal de 1988, o qual afirma que ninguém será culpado até o trânsito em julgado. Sob tal perspectiva, pessoas inocentes podem ser criminalizadas e terem suas vidas comprometidas na sociedade, enquanto os verdadeiros culpados são esquecidos.
Em segundo lugar, alguns filmes e programas de TV apresentam protagonistas ladrões que ajudam os pobres, assim como romantizam ladrões de comida vítimas da fome. No entanto, segundo a teoria da identificação diferencial de Daniel Glaser, uma pessoa segue uma carreira criminal à medida que se identifica com outras pessoas reais ou fictícias. Dessa forma, os meios de comunicação em massa exercem grande influência na aprendizagem do indivíduo e o leva a crer na execução da justiça ao assumir o papel de herói acima da lei.
Portanto, é necessário que a justiça fiscalize o que é veiculado nos meios de comunicação, sem interferir na liberdade de imprensa, mediante a criação de um portal de denúncias online contra programações sensacionalistas, para proteger as pessoas de serem condenadas pela sociedade antes da decisão de um tribunal. Assim como, a mídia deve investir em canais educativos a fim de promover debates sobre variados temas para conscientizar o cidadão de seus direitos e deveres. Desse modo, a ignorância não será mais um problema, como afirmou Goethe.