Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 13/04/2020

De acordo com o sociólogo José Martins de Souza, autor do livro “Linchamentos - A Justiça Popular Brasileira”, mais de 1 milhão de brasileiros participaram, nos últimos 60 anos, de algum ato de justiça com as próprias mãos em público. O autor destaca uma infeliz e complexa realidade, causada por diversos fatores, mas fortemente agravada pelo tom de parte da mídia ao tratar de crimes violentos, incentivando a população a agir irracionalmente, motivada por um desejo distorcido de justiça.

Primeiramente, é preciso compreender que, embora não seja responsabilidade exclusiva da mídia, o fenômeno dos linchamentos encontra em parte dos meios de comunicação um incentivador. A ineficiência da Justiça brasileira em garantir a segurança da população e punir responsáveis por crimes hediondos amplia na opinião popular um sentimento de impunidade. Essa sensação, aliada ao discurso de diversos formadores de opinião na mídia tradicional, em especial os apresentadores de programas policiais, que frequentemente apoiam abertamente a violência policial e expõem suspeitos de crimes violentos, gera em parte da população uma resposta irracional ao problema da insegurança, na forma da busca pela justiça com as próprias mãos.

Ademais, os tons radicais adotados por parte da mídia leva aos participantes de linchamentos a agir sem nenhum compromisso com a verdade e a acusar indivíduos sem provas. É o que aconteceu, por exemplo, em 2014, quando uma mulher foi assassinada em público na cidade de Guarujá por um grupo de pessoas, motivados por um boato que havia sido disseminado em uma rede social, que a acusava de sequestros e atos de bruxaria. A prática de um crime hediondo, motivado apenas por acusações sem prova, reflete a pouca preocupação que uma parcela dos meios de comunicação tem com respeitar o trânsito em julgado antes de condenar um suspeito, o que acaba por incentivar a população a agir como júri, juiz e executor da pena.

Nota-se, portanto, a necessidade de cobrar responsabilidade da mídia e de educar a população a respeito desse fenômeno. Para isso, o Ministério da Educação deve atuar em conjunto com a Secretaria de Comunicação para incentivar, através de debates nas escolas e de campanha publicitária, que a população desenvolva seu senso crítico, de modo a julgar as informações recebidas através da imprensa. Além disso, a Justiça brasileira deve investigar e punir aqueles que divulgam notícias falsas com intenção difamatória, bem como aplicar sanções a indivíduos que usem seu direito de liberdade de expressão para incentivar a violência. Assim, os meios de comunicação poderão ter o seu papel de informar preservado, e a população agirá melhor diante de situações injustas.