Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos
Enviada em 01/05/2020
Sensacionalismo: uso e efeito de assuntos polêmicos para chocar a opinião pública, sem que haja preocupação com a veracidade. A partir dessa conceituação, é inevitável a associação entre tal recurso e a atual qualidade das notícias brasileiras. Isso decorre em razão da ausência de mecanismos que estimulem o acesso diversificado à informação por parte da população, tendo em vista que é essa a parcela mais afetada pelo bombardeio de notícias desse cunho, cuja prática incentiva ações violentas e revanchistas.
Em primeiro lugar, é interessante destacar que os meios de comunicação sempre estiveram presentes na formação da opinião popular. Carlos Lacerda foi um jornalista que, sob incentivos financeiros, dedicou-se a criar notícias apelativas e pouco substanciais acerca de presidentes como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, com o intuito de manipular a popularidade desses. Para isso, ele utilizava o rádio e o jornal impresso como ferramentas. Deste modo, evidencia-se que a difusão de especulações pelo jornalismo é marca registrada. O escritor George Orwell, nesse sentido, contribui para esta relação ao defender que a mídia, financiada por grandes empresas, se torna hegemônica e, com isso, controla a população.
Ademais, é notório reconhecer que o direito à liberdade de imprensa, assegurado pela Constituição Federal de 1988, difere em totalidade, dos discursos de ódio. Contudo, ao reportar acontecimentos, é clara a aproximação dos editoriais com as classes populares em situações como: chacinas, perseguições policiais e prisões em flagrante. Dessa forma, a mídia utiliza-se de sua influência para criar narrativas, emitir julgamentos e fazer com que a população sinta-se impotente, ao passo que dotada de possibilidades para fazer justiça com as próprias mãos.
Em virtude dos fatos mencionados, cabe ao Ministério Público notificar, por meio de ofícios, os comunicadores que utilizarem o discurso de ódio e incentivarem a violência. Outrossim, cabe ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação - órgão de máxima deliberação em telecomunicações no Brasil - incentivar, por meio de editais, o surgimento de mídias alternativas, com o intuito de fornecer mais fontes de informação a população. Por fim, espera-se com tais iniciativas que a qualidade das notícias brasileiras ganhe outro patamar.