Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 10/05/2020

Segundo a Constituição Federal de 1988, cabe ao Poder Judiciário manter a ordem e resolver conflitos conforme for previsto pela lei. Entretanto, no Brasil contemporâneo, observa-se que a justiça com as próprias mãos se tornou uma realidade no cotidiano da população, que busca a qualquer custo solucionar problemas à sua maneira. Nesse cenário, as ferramentas de difusão de informação são decisivas, pois possuem grande influência sobre o indivíduo e podem agravar a adversidade. Logo, visto que o dilema possui graves consequências e razões inadmissíveis, urge que a mídia atue na sua resolução.

Sob essa ótica, o personagem Batman surge como principal símbolo da justiça com as próprias mãos, dado que após ter seus pais assassinados decide agir por conta própria na luta conta o crime. Com efeito, a população passa a acreditar que não há problemas nessa conduta, uma vez que o herói sempre se dá bem no final. Contudo, vale ressaltar que além de representar um retrocesso histórico, pois remete à Idade Antiga, anterior à divisão de poderes, o justiçamento fere o ideal democrático e pode acarretar efeitos preocupantes, como os famosos linchamentos. Diante disso, pode-se afirmar que, caso o cenário não seja reestruturado, implicações poderão se agravar e tomar maiores proporções.

Por esse prisma, o sociólogo francês Pierre Bourdieu afirma que o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão. Nessa perspectiva, ao incentivar o justiçamento, os meios de comunicação, em vez de apenas levar conhecimento para o povo, contribuem para a propagação da violência. De fato, nota-se que, ao não agir de maneira imparcial na veiculação de notícias, repórteres e jornalistas influenciam a população a agir de modo agressivo, muitas vezes contra o sistema. Nesse âmbito, a teoria de Bourdieu, apesar de correta, não é posta em prática no contexto brasileiro. Em face disso, reafirma-se a tese de que a ação midiática é de suma relevância no quadro em debate.

Portanto, medidas são necessárias para resolução do impasse no que tange à influência dos veículos de informação sobre o ideal de justiça supracitado. Para tanto, a mídia, como principal ferramenta formadora de opinião, deve, em vez de manipular o indivíduo, incentivar sua criticidade por meio da atitude imparcial na difusão de notícias. Nesse sentido, tal ação deve ser realizada a fim de mitigar a problemática e acatar a Constituição.