Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 12/08/2020

A série britânica, exibida pela plataforma de streaming Netflix, “Ninguém Mandou”, retrata a história de um grupo de quatro adolescentes, as quais insatisfeitas com as injustiças ocorridas no colégio decidem buscar respostas por conta própria. Fora das telas, essa necessidade de se vingar com as próprias mãos e a violência resultante desse processo, tem se tornado cada vez mais frequente, muitas vezes, motivada pela própria mídia. Dessa forma, é preciso analisar  a grandeza e as consequências da influência do meio midiático nesse meio.

Em primeiro momento, faz- se necessário entender as proporções dessa influência. Segundo dados fornecidos por uma pesquisa realizada em 2016 na Universidade de Michigan, Estados Unidos,  a mídia tem influência direta na formação de crianças e jovens, demonstrando que aqueles que possuíam  maior contato com programas violentos se tornaram adultos mais agressivos e suscetíveis a problemas. Nesse cenário, a cultura de justiceiro difundida em filmes, como “O Justiceiro”, “Robin Hood” e diversos outros com a temática heroica, suscitam a ideia de impunidade e corroboram para a criação de um pensamento em que qualquer um pode realizar justiça por si só.

Ademais, a imprensa também se caracteriza como grande influenciadora nesse processo. Consoante ao pesquisador do Núcleo de Estudo de Violência da Usp, Vitor Blotta, “a forma como um determinado caso é retratado pela mídia pode influenciar atitudes de apoio e respostas violentas por parte da população”.  Essa realidade intensifica os crimes de ódio, tal como a violência no país, criando uma atmosfera ainda maior de instabilidade. Nesse contexto, de acordo com o Atlas da Violência, o Brasil atingiu em 2017 uma alta de até quarenta e nove por cento nas taxas de homicídios em certos estados brasileiros.

Diante do exposto, é nítida a importância de conscientização acerca dessa problemática. Portanto, cabe ao governo, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ratificar o cumprimento das leis, admitindo um tratamento mais rigoroso em seu exercício, para que possa manter satisfeita a população com o tratamento judiciário, repelindo o sentimento de insegurança e um desejo em agir por conta própria. Outrossim, cabe ao próprio setor midiático se policiar sobre sua maneira de divulgar notícias e retratar acontecimentos, evitando romantizar um surgimento de heróis urbanos e validando um julgamento de que a justiça feita com as próprias mãos apenas gera mais injustiça, com o propósito de atenuar os índices locais de violência. Somente assim, poderá ocorrer um rompimento do ideal de “olho por olho, dente por dente” enraizado na sociedade e retratado na série “Ninguém Mandou”.