Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 04/09/2020

A imprensa, em qualquer formato, seja ele de rádio, internet ou televisivo tem como papel básico disseminar informação com responsabilidade e seriedade. No entanto, nos últimos anos tem aumentado o número de jornais, revistas e personalidades influentes apresentando discursos estimulando e legitimando atos violentos. Essa onda crescente de incitação à violência por parte deles muito se dá pela alta de audiência que suas falas promovem, como também pela falta de impunidade com esses existente no Brasil.

O peso de discursos agressivos, que em algum tom fomentam a violência como respaldo para a própria segurança tem na história seu maior legado. Hitler, através dos seus pronunciamentos anti-semita conseguiu criar uma massa de afiliados a sua ideologia extremista. Não muito diferente dele, apresentadores de jornais sensacionalistas usam da massiva repetição de cenas de barbaridade para desencadear uma onda de terror na população, que por sua vez vê no ataque sua melhor defesa. Com isso, vemos uma enorme banalização da violência, que tem como uma das consequências o aumento dos “justiceiros”, civis que decidem julgar e sentenciar os “culpados” com suas próprias leis e mãos.

Para além da problemática da minimização dos atos agressivos, existe ainda a ocorrência da propagação de falsos crimes. Não raro surgem novas mortes, espancamentos e injúrias a pessoas inocentes, como o caso da Fabiane Maria de Jesus que foi morta por ser acusada erroneamente de praticar magia negra. A forte disseminação das fake news, somada a grande abrangência dos famosos justiceiros dificulta-se o rastreamento de todos os responsáveis, sejam daqueles que propagam as notícias faltas, quanto daqueles que praticaram as agressões. Ou seja, sem um culpado não há quem punir. Consequentemente, sem uma punibilidade que sirva de exemplo, antigos e novos agressores vêem essa brecha como uma possibilidade para novos atos, fazendo o ciclo do medo e da “justiça” civil se repetir.

Deste modo, não temos como negar a parcela de culpa que as mídias carregam sobre esses casos. Com o objetivo de penalizar de forma exemplar a impressa ou qualquer pessoa física que apresente discursos de ódio ou que incitem à violência, o Ministério Público em junção com a Justiça, necessita enrijecer as leis que julgam crimes com esses perfis, para que por meio de um melhor executamento nas punibilidade, órgãos e pessoas sejam e sintam-se mais responsabilizadas por suas condutas. Para tentar sanar o problema de rastreamento, deve-se promover um maior investimento, por parte do Estado, em setores de tecnologia especializados da polícia para que haja uma melhor busca dos responsáveis. Somente assim podemos quebrar o ciclo vicioso da violência e da justiça civil.