Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos

Enviada em 20/08/2020

De acordo com o filósofo Pierre Bourdieu, aquilo que foi criado para ser objeto de democracia direta, jamais deve ser usado como mecanismo de opressão simbólica. No entanto, hodiernamente, devido a difusão do sentimento justiceiro pelo meio midiático e a espetacularização da violência, veículos de comunicação que deveriam transmitir informação de modo impessoal, acabam incitando não só a justiça com as próprias mãos, mas também a violência de maneira inconsciente.

Em primeira análise, é válido reconhecer como a mídia pode ser um forte fator de influência na conduta do indivíduo. Assim sendo, qualquer discurso de caráter apelativo pode refletir diretamente nas ações do público. Acerca disso, é pertinente apontar uma situação similar retratada na série de filmes “Uma noite de crime”. Em que, por meio de veículos midiáticos, a população é coagida a resolver suas questões de maneira agressiva. Logo, a forma como o discurso de justiça é transmitido com o intuito de comoção do destinatário, pode incentivá-lo a aplicar essa justiça com as próprias mãos.

Ademais, a transmissão de acontecimentos violentos feita de maneira errônea pode transformar esse episódio em um espetáculo. Por conseguinte, surge uma massa de espectadores com uma visão romantizada sobre o assunto e, em casos extremos, consideram essa exposicao de crimes explícita como uma espécie de entretenimento. Nesse sentido, é possivel citar o caso de Luka Magnotta, um assassino canadense que foi motivado a publicar seus crimes pelo modo como a mídia em geral o popularizava. Em síntese, a técnica da imprensa de utilizar artifícios sensacionalistas para prender a atenção do público é extremamente perigosa para destinatários mais influenciáveis, e pode incentivar ações criminosas indiretamente.

É  Inegável, portanto, que medidas precisam ser tomadas para diminuir esta problemática. É dever dos veículos de mídia, alertarem e minimizarem o impacto de suas transmissões na sociedade. Isso pode ser feito por meio de uma política de impessoalidade ao tratar-se de matérias mais chocantes, além de avisos obrigatórios direcionados à audiência sobre possíveis gatilhos emocionais, conteúdo explícito e faixa etária adequada. Com o intuito de proteger o público sensível e evitar o incentivo à violencia de modo consciente e inconsciente. E, assim, impedir que veículos de comunicação sejam convertidos a mecanismos de opressão simbólica, como apontado por Bourdieu.