Como a mídia pode incitar a violência e a justiça com as próprias mãos
Enviada em 17/09/2020
Hamurábi, chefe político da antiga Mesopotâmia, criou o primeiro código de leis conhecido na história, a Lei de Talião. Tal legislação baseia-se na máxima ‘‘olho por olho, dente por dente’’, em que, teoricamente, atribui-se uma punição com mesmo peso da ilegalidade cometida. No Brasil, entretanto, se por um lado essa conduta não é permitida pela Constituição Federal, por outro, a mídia, algumas vezes, incita a violência e a justiça com as próprias mãos. Nesse sentido, convém analisar a principal causa e consequência dessa problemática à sociedade.
Em primeira análise, Anthony Giddens, sociólogo contemporâneo, mediante o livro Mundo em Descontrole, afirma que o indivíduo é influenciado pelas estruturas do cotidiano. Seguindo essa linha de raciocínio, é possível destacar a presença dos agentes midiáticos, como a televisão, na rotina do brasileiro, pois, certas vezes, com o fito de ganhar engajamento, esse meio faz uso do sensacionalismo que, de certa forma, pode influenciar o espectador a agir de maneira violenta contra pessoas que deveriam ser julgadas somente pela óptica da justiça brasileira. Dessa forma, torna-se claro que o efeito de assuntos capazes de chocar a opinião pública sem que haja preocupação com os direitos do cidadão é intrínseco ao impasse supracitado.
Ademais, de acordo com o filósofo iluminista Immanuel Kant, o ser humano, quando age em prol de opiniões de terceiros, está em estado de tutela e, assim sendo, não exerce ações racionais. Dessarte, é válido ressaltar que apesar da mídia ser necessária em termos informativos e de entretenimento, a partir do ponto que ela usa estratégias persuasivas como sensacionalismo, o livre arbítrio e, consequentemente, a segurança pública são prejudicados, visto que discursos autoritários e impactantes funcionam como o estado de tutela de Kant à população. Sendo assim, é evidente que o uso dessas estratégias midiáticas incita a justiça com as próprias mãos, tendo como consequência a alienação popular e possíveis aumentos nos caso de violência no país.
Portanto, para que a ideia de Giddens seja benéfica e que a população obtenha o esclarecimento kantiano, urge ação do Governo. Por conseguinte, o Ministério da Cultura, juntamente ao Poder Legislativo, deve, por intermédio de leis que abranjam o sistema de televisão brasileiro, entre outros agentes da mídia, como rádios e jornais, fiscalizar notícias veiculadas com o fito de alertar e até mesmo penalizar veículos de informação que estejam promovendo escárnio popular através de sensacionalismo. Desse modo, provavelmente, a mídia não irá fomentar a violência popular como meio de justiça e o Código de Hamurábi não será presente na sociedade brasileira.