Como lidar com o medo atômico?

Enviada em 31/08/2019

O medo da energia nuclear se estabeleceu na sociedade desde que foi apresentada à humanidade pelos holocaustos de Hiroshima e Nagasaki em 1945, sob a forma do que se poderia chamar “o pior caso de marketing da História”. Ele segue seu caminho através de nossa cultura e nunca está longe nas discussões públicas sobre política nuclear. A sociedade tem muitos mecanismos de enfrentar esse medo, seja pelo humor negro do Dr. Strangelove ou de Holmer Simpson, por um lado, ou seja pela hiper-racionalização e sistematização lógica do estrategista militar Herman Kahn, pelo outro. Historicamente, entretanto, o medo conviveu, durante algumas décadas, com uma esperança salvadora, isto é, o “átomo para paz” como redentor da humanidade.

Esta segunda percepção, porém, passou a se degradar rapidamente a partir do início da década de 80, após o acidente, sem vítimas nem dano ambiental, da usina nuclear de Three Miles Island, nos EUA em 1979. Ironicamente, este acidente ocorreu 12 dias após Hollywood lançar o filme “Síndrome da China”, estrelado por Jane Fonda e Jack Lemmon. Até então, a indústria cinematográfica americana tinha explorado exaustivamente o medo das armas nucleares em inúmeros filmes nas décadas de 50, 60 e 70. “Síndrome da China” foi o primeiro filme a explorar o medo nuclear a partir de usinas de geração elétrica, ou seja, de um uso pacífico, que se expandiam enormemente nos EUA nessa época.

Com respeito às armas nucleares, o medo é, em grande medida, necessário. Suas origens imediatas não são muito surpreendentes, pois as imagens de Hiroshima e Nagasaki são persistentes. Qualquer tecnologia que faz a sua estreia mundial pondo em chamas dezenas de milhares de civis é, certamente, temida com toda razão. O medo está presente em todas as avaliações sobre armas nucleares, sejam a favor ou contra. Aqueles que são contra querem acabar com a possibilidade de novos horrores e aqueles que são a favor transformam o medo em uma ferramenta para manter certa ordem global, desencorajando inimigos de fazer coisas que eles próprios prefeririam não fazer.