Conflito do século XXI: por que os casamentos se tornaram descartáveis?

Enviada em 11/05/2022

O filme História de um Casamento narra as crônicas do fim de um relacionamento em meio a um processo de divórcio. De maneira realista, o diretor utiliza da própria experiência de separação para conduzir uma união desgostosa ao seu final feliz, quando os personagens se encontram, satisfatoriamente, deunidos. Sob essa ótica, nota-se que a valorização da independência e a atenuação da pressão social vêm diluindo a relevância do matrimônio na sociedade contemporânea. Diante disso, faz-se pertinente a reflexão acerca da descartabilidade do casamento nos dias de hoje.

No que tange à valorização da independência, repara-se que é um fenômeno fruto da constante busca pela realização individual do sujeito moderno. Isso em razão de, segundo a obra Amor Líquido de Zygmund Bauman, com a evolução do modo de vida capitalista, o contentamento pessoal estar cada vez mais atrelado ao bem-estar material, o que acarreta na tendência de objetificação das relações humanas. Desse modo, com a simplicidade de se trocar a televisão ou o celular, a substituição de laços afetivos dá-se de maneira rápida, prática e indolor, com a conveniência de autopreservação de ambas as partes.

Vale ressaltar, ainda, que a diminuição da pressão cultural pela oficialização matrimonial ocorre após a desconstrução progressiva dos papeis de gênero ao longo do tempo. Isso posto, o clássico da literatura britânica Orgulho e Preconceito expõe de maneira concisa o sistema social em constante declínio desde o século XIX, o qual sustenta o casamento como única forma de mobilidade social da mulher. Diante dessa perspectiva, a promoção da emancipação feminina feita pelo movimento feminista mitiga a cada dia a necessidade do casamento como forma de afirmação do seu valor próprio.

Em virtude dos fatos mencionados, pode-se afirmar que cabe à sociedade, com atuação individual, a humanização dos relacionamentos interpessoais. Isso posto, tal proposta torna-se possível por meio da prática e promoção da compreenção e autorreflexação, a fim de que, apesar da identidade independente de cada parte, os sujeitos cresçam e ajudem uns aos outros na construção de um relacionamento estável e frutífero.