Conflito do século XXI: por que os casamentos se tornaram descartáveis?

Enviada em 14/05/2022

No drama “História de um Casamento” (2019), uma mulher em busca de divórcio recebe ajuda profissional de uma advogada, que afirma ter passado por este processo diversas vezes. Analisando esta representação ficcional, identifica-se uma problemática nas relações do século XXI, que é a “descartabilidade” da instituição matrimonial. Entretanto, não é coerente tratar isso como algo inteiramente negativo, tendo em vista que, em decorrência da desburocratização do divórcio, e da ampliação da luta pelos direitos das mulheres, o fim deste tipo de relação pode ter cunho social frutífero.

A priori, existe certa clareza no porquê da atual diminuição do tempo conjugal. Com a modificação das leis do divórcio, em 2010, onde a Justiça agora consta que o pedido não necessita mais de análise culposa, e que o prazo de dois anos para sua concepção foi invalidado, veio à tona uma acessibilidade muito maior aos indivíduos que buscam ao processo. Esta facilidade de forma alguma incentiva os casais à desejarem a separação, porém, torna a situação mais confortável para aqueles que dela precisam, sejam quais forem seus motivos.

Sob esse viés, a necessidade do divórcio origina-se das uniões conjugais disfuncionais. Contudo, a sociedade patriarcal e machista do século passado era mais conservadora e secretiva sob essa instituição e seus problemas do que nos dias atuais. Um exemplo disso era a indoutrinação veiculada pelos meios de comunicação, como as seguintes frases retiradas da revista “Jornal das Moças” , de 1957: “É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido”; “Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas”. Trechos como estes revelam padrões de relacionamentos tóxicos e hierárquicos, que só estão se esvaindo atualmente devido à constante luta pelos direitos femininos.

Em suma, os casamentos se tornando “descartáveis” não é produto da desvalorização desse laço, mas sim de sua reavaliação quando este apresenta falhas graves. Deste modo, o Ministério das Comunicações, com seu alcance midiático, deve evitar a difusão de informações que espelham as doutrinas do passado, divulgando apenas fatos claros e compreensivos sobre as complexidades desta construção social, em prol de seu mantimento saudável.