Conflito do século XXI: por que os casamentos se tornaram descartáveis?
Enviada em 02/07/2022
Vende-se casamento: se não gostar, tenha seu dinheiro de volta
2,8 mil é o número de divórcios em 2021 que superaram o de 2020. A pandemia trouxe várias consequências, e uma delas foi essa crescente, calculada pelo Colégio Notarial do Brasil. Estar num mesmo ambiente se tornou um desafio na realidade de muitos casais de hoje em dia. A cultura atual é do imediatismo: se o problema não parece se resolver sozinho, tende-se ao escapismo. Quando o casamento não vai bem, a solução mais rápida é o divórcio, caracterizando um relacionamento líquido.
Essa liquidez foi estudada pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Nomeados de “amor líquido” são os relacionamentos pautados em valores superficiais. Segundo ele, os relacionamentos contemporâneos se tornaram descartáveis ao serem valorizados atributos como prazer e status. E nisso, o casamento leva o papel de bem de consumo: deve existir enquanto tiver alguma utilidade; no momento em que se tornar apenas despesa emocional, coloca-lhe o fim.
Ao passo que essa decisão se torna mais e mais comum, a cobrança de amigos e familiares para um “até que a morte separe” já não é a mesma, e as leis se adaptaram aos moldes da sociedade. Até antes da Emenda 66 de 2010, o divórcio deveria ser precedido de 2 anos de separação. Atualmente, o processo é quase imediato, e é possível até pela vontade de somente um dos lados. Destarte, escapar de um matrimônio quebrado se torna ainda mais fácil.
Frente a esse cenário, torna-se necessário investir numa mudança cultural, que deve começar na base da sociedade: as crianças. Assim, as escolas e creches devem passar a incluir a resolução de problemas interpessoais dentro da sala de aula, apresentando soluções para problemas, inevitáveis, na base da conversa, de modo que o ouvir o outro e expor um ponto de vista se torne natural. Dessa maneira, pode-se esperar uma próxima geração que vê o casamento não apenas como uma opção na vitrine, mas como uma opção de rota na estrada da vida: com seus buracos, mas contornáveis.