Conflito do século XXI: por que os casamentos se tornaram descartáveis?

Enviada em 30/07/2022

Historicamente, o casamento como instituição tem sido celebrado e regrado por costumes religiosos. Todavia, atualmente, o matrimônio passou a ter foco na consolidação de uma união estável, deixando os preceitos implantados pela Igreja em segundo plano. Isto posto, é possível perceber que a normalização do divórcio está diretamente relacionada à liberdade individual aflorada no mundo contemporâneo, ou seja, a inconstância conjugal é reflexo da valorização da autonomia entre casais na modernidade.

No que tange às relações matrimoniais fugazes na contemporaneidade, um aspecto significativo pode ser considerado. Zygmunt Bauman definiu “Modernidade Líquida” como sendo a representação da inconstância das relações humanas no mundo atual, o que sintetiza precisamente a qualidade dos vínculos entre casais no presente, os quais tem seu foco na soberania individual em oposição ao compartilhamento de interesses. Sendo assim, é possível atribuir a normalização de divórcios na atualidade com a liquidez das uniões humanas.

Por conseguinte, outro ponto importante pode ser considerado. Na obra de Gustave Flaubert, Emma Bovary é uma mulher que encontra no adultério a liberdade com a qual sempre sonhou e acaba por tirar sua vida ao perceber a infelicidade gerada por seu estilo de vida. A leitura de Madame Bovary é chocante e envolvente, por se tratar de uma produção que relata a vida de um casal que não trabalhou seus anseios individuais antes e durante o matrimônio. Tal destino trágico normalmente não ocorre com os cônjuges da atualidade, porém não deixa de refletir como a urgência pela satisfação particular resulta na quebra de laços.

Portanto, é notável a influência da busca por autonomia no rompimento de relações matrimoniais atuais. Para que tal questão possa ser amenizada, é importante que o Estado e empresas ofereçam serviços de psicoterapia com profissionais capacitados para todos os indivíduos que necessitam de tal atendimento a fim de promover o autoconhecimento e a reflexão sobre o “eu”. Assim, mais cidadãos poderão aprender a lidar melhor consigo mesmos e com o outro.