Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 28/02/2020
No processo ambíguo de oferecer encantamentos frente aos desencantamentos do mundo, de que fala Max Weber, o fantástico acaba sendo acompanhado da propagação de outras narrativas, dentre elas, o melodrama e o horror. Comparando essa ideia à posição assumida pela mídia brasileira na contemporaneidade, observa-se que muitas informações verídicas e necessárias perdem espaço para a repetição da exposição de crimes, o que transforma a violência em um ato banal. Em busca de maiores audiências, os fatos são apresentados aos telespectadores de maneira exagerada e sensacionalista, causando um medo coletivo.
Os meios de comunicação de massa possuem a função de elevar o patamar civilizatório da nação, a partir de debates e reflexões sobre atualidades, contudo, prevalece o caminho contrário. Para começar, a insistência com que alguns veículos expõe crimes cometidos, faz com que o massacre e a tragédia tornem-se comuns aos olhos do ser humano. Essa situação fica mais grave quando adolescentes e crianças crescem assistindo a esses conteúdos e acabam adicionando o hábito de vingança ao conjunto de valores que constitui o seu caráter. Logo, as pessoas passam a agir de maneira descomedida em momentos de irritabilidade do dia a dia, como a de fazer justiça com as próprias mãos. Segundo uma pesquisa sobre casos de linchamento nos últimos 60 anos, realizada pelo sociólogo da USP José de Souza Martins, ocorre ao menos um linchamento ou uma tentativa de linchamento por dia no Brasil.
Adicionalmente, o sensacionalismo, bastante utilizado pela mídia para atrair notoriedade, não gera formação intelectual, porque as informações são disseminadas com distorções para tornarem-se chamativas. A forma exagerada com que os casos são apresentados, vai de encontro a um iminente desrespeito aos familiares das vítimas . Além disso, indivíduos que assistem a atitudes hostis todos os dias, têm seu psicológico fragilizado e sua própria realidade alterada, a ponto de sentirem-se privados, inclusive, de caminhar sozinhos pelas ruas, temendo que lhes aconteça o mesmo.
Dessarte, o poder de propagação da violência pela mídia está bastante ligado ao lucro. Para combater efeitos negativos da informação mercantilizada, o Governo Federal deve criar uma agência para fiscalizar as escolhas de programas e conteúdos apresentados pelas empresas de comunicação, a fim de que elas disponibilizem mais opções educativas para toda família. Ademais, cabe ao poder legislativo do país atuar em conjunto com o executivo e desenvolver a edição de uma nova lei que estabeleça limites para a superexposição de atos criminosos nos jornais. Dessa forma, a sociedade poderá recuperar valores que são fundamentais para a coexistência pacífica entre os Homens.