Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 04/03/2020
O filme “Uma noite de crime” aborda a comunidade dos Estados Unidos e sua busca pelo fim da violência, isto é, em apenas um dia do ano é liberado cometer crimes em todo o país. Nesse sentido, o longa retrata a espetacularização da violência ao filmar as 12 horas de crimes ocorridos ao longo da noite. Todavia, distante da ficção, a realidade brasileira também vive uma espetacularização da violência pela mídia, visto que, a busca pela audiência é um fator importante ao televisionar um tema. Diante disso, tem-se que as consequências de tal fenômeno são os danos psicológicos causados pela exposição, o sensacionalismo intenso promovido, além do pânico generalizado que pode causar.
Nesse sentido, é indubitável que a mídia televisona a violência como forma de obter audiência e, tal fato, prejudica psicologicamente as vítimas e até mesmo a família das mesmas, já que, elas se sentem expostas de forma inconsequente. Tal questão foi observada pela psicóloga da Universidade de São Paulo, Amanda Carvalho, em que expôs que 54% das famílias de vítimas de sequestros se sentem violadas ao perceberem a mídia invadindo espaços pessoais. Esse cenário de invasão de privacidade relatado pode causar síndromes do pânico, alto estresse e até mesmo depressão, segundo o site G1.
Além disso, sabe-se que o intenso sensacionalismo ao se abordar um crime atrapalha o trabalho policial, posto que, segundo a revista Exame, cerca de 32% dos sequestros são prejudicados pela exposição do caso na mídia. Essa questão acontece, uma vez que, a mídia não possui empatia com as vítimas, de acordo com o jornalista Cláudia Rodrigues, palestrante sobre empatia na sociedade atual. Tal questão, por exemplo, foi abordada no sequestro da jovem Eloá ,em 2008, em que a mídia obteve acesso ao sequestrador antes mesmo da equipe policial, conforme o site O Globo.
Ademais, é notório que o pânico generalizado também é uma consequência da violência posta como espetáculo, já que, de acordo com uma pesquisa da página Quebrando o Tabu, cerca de 65% da população sente ansiedade e insegurança após assistir jornais que tratam sobre a violência do Brasil. Paralelo à essa questão, o sociólogo Milton Santos, abordou em suas teses que na sociedade globalizada atual, a mídia está tão enraizada no cotidiano da população que tem o poder de se inserir de forma incisiva na mentalidade da comunidade.
Infere-se, portanto, que a Secretaria Especial de Cultura, órgão federal responsável por proporcionar informação e cultura a população, contratem pessoas responsáveis por fiscalizar o teor das reportagens no país. Tal ação seria feita por meio de uma equipe especializada em denunciar jornais e reportagens de cunho sensacionalista na mídia. Essa questão seria feita com o objetivo de minimizar a espetacularização da violência e, desta forma, afastar da ficção retratada no filme “Uma noite de crime”.