Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 04/03/2020
De acordo com a ideia do escritor realista Machado de Assis, ‘o jornal é a liberdade, é o povo, é a consciência, é a esperança, é o trabalho, é a civilização’. No contexto atual, entretanto, tal cenário idealizado não se estende à questão ética jornalística, visto que a espetacularização da violência pela mídia brasileira representa seu baixo teor crítico e moral. Nesse sentido, convém analisar como a banalização da vida e o estímulo à hostilidade são incitadas por esses meios comunicativos.
Em primeiro lugar, a superexploração de fatos violentos pelos centros de informação de massa apresenta-se como relevante na vulgarização da sociedade. Isso acontece, pois a exposição frequente ao mesmo estímulo incapacita, diretamente, a emoção humana de reagir continuamente na mesma intensidade, de forma que ocasiona a psicoadaptação, termo abordado pelo psiquiatra Augusto Cury. Dessa maneira, é insustentável a continuidade da negligência e menosprezo midiático na transmissão de informações em detrimento do bem estar individual.
Por conseguinte, a transformação da hostilidade em espetáculo pelas mídias brasileiras representa um impedimento para redução da violência. Isso é afirmado, uma vez que, a cultura da agressividade é perpetuada em razão das orientações bárbaras e não pacifistas presentes nas programações jornalísticas, o que acarreta, consequentemente, em um índice 30 vezes maior de homicídio no Brasil se comparado ao da Europa, como apontado pelo Atlas da Violência de 2018. Dessa forma, a contradição ao ideal ético machadiano dos jornais insere o país em um ambiente de retrocesso político e social.
Fica evidente, portanto, que a espetacularização da violência pela mídia brasileira provoca consequências psicossociais na esfera individual e coletiva do tecido social. À vista disso, faz-se necessário a retomada do real valor jornalístico como objeto de educação das massas, por meio da vigilância civil sobre os meios de comunicação, com notificação aos perfis oficiais do veículo informativo na internet nas situações que houver excessivo midiatismo, a fim de garantir que os princípios éticos do cidadão e da família sejam respeitados. Somente assim, as ideais de Machado de Assis começarão a serem concretizados.