Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 12/03/2020

Émile Durkheim, sociólogo francês, afirmou que a violência é análoga à dor, uma vez que embora incomode, sinaliza a existência de problemas. Nesse sentido, a mídia deveria retratar essa patologia,a fim de denunciar e exigir respostas governamentais. No entanto, ela transforma essa anomia em um ’espetáculo’ que visa apenas audiência alta. Dessa forma, é essencial destacar os efeitos dessa postura antiética, para que seja possível atenuá-los e fazer o país alcançar seu ideal democrático.

É válido analisar, antes de tudo, que a superexposição à brutalidade potencializa a banalização da vida. Sabe-se que o contato diário com conteúdos violentos faz com que os cidadãos acostumem-se com esse quadro e naturalizem essas práticas, de modo que ficam inertes ao ouvirem barbaridades. Diante disso, perdem a capacidade de refletir sobre a gravidade dos casos e, consequentemente, não sensibilizam-se com o sofrimento alheio, fomentando o individualismo. Nesse viés, a empatia torna-se quase inexistente e as relações interpessoais se enfraquecem, indo ao encontro, pois, do conceito de modernidade líquida proposta pelo filósofo Zygmunt Bauman, o qual afirma que as relações contemporâneas seriam superficiais e efêmeras. Prova disso é o programa Cidade Alerta, de São Paulo, que faz o ouvinte ter um breve contato com os crimes e transforma a realidade paulista em uma encenação dramática, prendendo a atenção do público pela forma, não pelo conteúdo.

Ademais, além de tornar comum, o sensacionalismo vinculado à fúria cria um ciclo vicioso, no qual a violência é estimulada e perpetuada. A terceira lei newtoniana fala que toda ação gera uma reação de mesmo módulo, direção e sentido contrário. Análogo ao postulado, pode-se afirmar que o ato de divulgação de conteúdos fatalísticos resulta em mais casos de agressões e mortes, pois os espectadores podem, por exemplo, se inspirar em crimes de grande repercussão e tentar reproduzir. Exemplo disso foram os jovens do massacre de Suzano que espelharam-se no atentado de Columbine, nos Estados Unidos. Dessa maneira, faz-se palpável a compreensão sobre os motivos que geram amedrontamento na sociedade brasileira.

Torna-se claro, portanto, que a espetacularização possui consequências maléficas que devem ser resolvidas. Para isso, é fundamental que o Ministério da Comunicação (MCTIC) convoque as companhias de imprensa e formule um acordo, no qual essas empresas deverão balancear as notícias de cunho cultural, social e político que chegam à população, de forma que o indivíduo não seja alienado tampouco bombardeado com violência.Às empresas que cumprirem o pacto receberão uma bonificação , por meio da parceria entre MCTIC e Ministério da Fazendo, objetivando a adesão máxima. Dessa forma, o Brasil não será mais vítima da superexposição e a mídia cumprirá seu papel social.