Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 12/03/2020
Consequências sociais do sensacionalismo e do jornalismo de má qualidade.
Desde o seu florescer com Gutenberg, a imprensa exerce o seu já conhecido papel social característico: o de circular a informação na sociedade. Mas, é no surgimento da “Revolução Digital” que o jornalismo, como então era conhecido, passa por uma alteração radical. Há o surgimento de um novo fazer jornalístico e, por tabela, de novas responsabilidades; estas, contudo, negligenciadas em um contexto de disputa por audiência e visibilidade.
O poder social do jornalista, seja no passado, seja no presente, sempre existiu e é imenso. Embora evidente, não se dispensa ressaltar que a fonte dessa importância é a capacidade única que esse profissional tem em formar ou induzir a opinião pública. O repórter, o âncora, o editorialista, entre outros, na prática, são os “donos da verdade”, são aqueles que têm o poder de validar o verdadeiro e o falso. Assim, o jornalista, em todas as suas variedades, ganha a capacidade de influenciar os rumos do país; e, de fato, o faz. Dessa forma, os jornalistas desempenharam papéis centrais durante o movimento abolicionista, por exemplo, e sem eles, por certo, a história teria sido outra.
Agora, estabelecidas as dimensões da responsabilidade de quem redige a notícia, segue-se no que tange a internet. Por volta da década de 1990, a circulação da informação chega próxima do seu apogeu, a “rede mundial de computadores” faz da notícia uma informação instantânea, ou seja, expande ao máximo os limites que o telefone já tinha atingido. Há, consequentemente, uma mudança radical nos noticiários: se antes o jornal vencedor, em termos de popularidade e reconhecimento, era definido em função da qualidade dos textos jornalísticos por ele apresentados, agora ganha aquele que der a notícia primeiro. Isso construiu um viés de imediatismo e sensacionalismo singulares nos sites e, principalmente, na televisão.
Dessa forma, o compromisso do cuidado em “como” exprimir uma notícia foi substituído por matérias invasivas e dispostas a tudo para conseguir visibilidade. Nesse sentido, dois casos ganham relevância por exprimir o perigo de lidar inapropriadamente com a informação, são eles: o caso de Columbine e o de Suzano. Em ambas as tragédias, por causa da forma com que foram abordadas, houve a romantização dos massacres de forma semelhante ao que ocorre no “Efeito Werther”.
Portanto, em face de todos os riscos que envolvem o tema, o Estado não deve, nem pode, se furtar a agir. Primeiramente, é preciso que o Congresso aprove leis que regulem a maneira de abordar certos temas e notícias considerando as implicações que possuem. Em segundo, cabe à sociedade, ao Ministério Público e ao Judiciário o dever de assegurar e fiscalizar o cumprimento dessas normas.