Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 24/03/2020

O caso Eloá, mais longo sequestro registrado pela polícia de São Paulo, ficou marcado por seu desfecho trágico: após a jovem foi feita de refém e, logo após, assassinada pelo ex-namorado, mesmo após quase 100 horas de negociação. Posteriormente, as grandes mídias televisivas foram consideradas responsáveis por dificultar o trabalho dos policiais, por meio da atuação irresponsável de seus repórteres que visavam aumentar a audiência sobre o sequestro. Nesse sentido, diante dos fatos supracitados, fica claro que não só a busca incessante por público como a irresponsabilidade da imprensa em tratar o sequestro foram determinantes para o fatídico destino da adolescente.

Entretanto, apesar de caótica, essa situação é mutável. De acordo com Theodor Adorno, a chamada “Indústria Cultural” introduz a mídia em um cenário capitalista, que, em busca de lucro, passa a oferecer serviços e produtos para a sociedade almejando puramente o mercado. Adicionalmente, sem se atentar ao fator humano e às consequências de seus produtos, que podem ser tanto físicas quanto psicológicas, a morte da Eloá e o trauma causado a todos os espectadores que acompanhavam o caso, é o principal reflexo dessa falta de responsabilidade, aliada à falta de ação das autoridades.

Ademais, é importante ressaltar a falta de incumbência da imprensa como uma das maiores promotoras do problema. Partindo desse pressuposto, o despreparo de repórteres e jornalistas em lidar com situações mais sensíveis, enquanto divulgadores da notícia, corrobora para um destino indesejável para as pessoas envolvidas, além de dificultar a ação das autoridades por meio de intromissões e exposição descontrolada dos planos dos orgãos responsáveis. Consequentemente, tudo isso retarda a resolução do empecilho, já que essa depreciação da mídia com as instituições públicas contribui para a perpetuação desse quadro.

Assim, faz-se necessário medidas que contenha o avanço dessa problemática na sociedade brasileira. Dessa forma, o Ministério Público Federal, junto às autoridades jurídicas, deve atuar como intermediador de reportagens potencialmente lesivas à sociedade, por meio da aplicação de multas e responsabilização judicial dos representantes das empresas midiáticas, mediante cadeia aos que forem considerados responsáveis. Igualmente, deve haver um preparo prévio dos jornalistas designados a reportar cada classe de notícia, no caso das criminais, o acompanhamento de um membro da polícia como instrutor desses profissionais. Desse modo, atenuar-se-à, ao longo do tempo, o impacto nocivo dessa grande espetacularização de jornais e programas televisivos, e desfechos como a da Eloá poderão ser evitados.