Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 28/03/2020

Abutre capitalista

Na obra “Sociedade do espetáculo”, do escritor francês Guy Debord, é retratada uma sociedade em que os valores humanos são ameaçados pela necessidade de exposição, poder e ostentação. Fora da literatura, é fato que a realidade apresentada por Debord assemelha-se à vivida pelo jornalismo contemporâneo no Brasil: temas, como a violência tem sido cada vez mais espetacularizados  na tentativa de despertar maior interesse social. Tal fato deve-se principalmente ao viés capitalista das informações na atualidade e à ausência de profissionais qualificados para exercer o jornalismo consciente.

Em primeira análise, é cabível salientar o valor econômico de conteúdos de teor trágico na sociedade capitalista atual como principal responsável pela espetacularização da violência na mídia brasileira. Consoante ao sociólogo Karl Marx, a desvalorização do mundo humano aumenta com a valorização do mundo das coisas. Essa lógica mostra-se assertiva na modernidade: o respeito aos princípios éticos e morais da informação tem sido gradualmente substituído por espetáculos de violência que atraem maiores audiências e consequentemente maiores lucros. Assim, a notícia perde seu valor humano a medida que  torna-se mero produto, tal como analisado por Marx.

Somado a isso, a falta de preparo de uma parcela dos profissionais da informação no que diz respeito a divulgação de notícias sobre a violência é outro fator que contribui para a espetacularização do tema. A exemplo, o longa metragem americano “O abutre” aborda a história de um jovem que passa a investigar e registrar crimes e comercializa-los com a mídia sem pensar nos possíveis impactos que tais ocorrências acarretariam à sociedade. Assim como na ficção, inúmeros jornalistas contemporâneos divulgam notícias sobre temas, como a violência de forma comercial e irresponsável sem ponderar as consequências sociais que podem ser geradas.

Isto posto, torna-se extremamente importante um debate a nível nacional sobre o tema. É dever da mídia em todas as suas vertentes desenvolver medidas que solucionem a problemática. Para isso, a criação de uma banca de profissionais capacitados para analisarem os conteúdos que serão divulgados de forma a garantir que estes não violem ética e moralmente a sociedade é de fundamental importância. Juntamente a isso, a participação do ministério da educação, através da fiscalização da qualidade dos cursos superiores que formam os profissionais da informação de modo a garantir a excelência dos mesmos no mercado de trabalho é imprescindível. Somente assim sera possível alcançar um jornalismo limpo de espetáculos e garantir que realidades como a vista em “O abutre” estejam apenas nos cinemas.