Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 01/04/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, do autor português José Saramago, é narrada a história de uma epidemia de cegueira branca, a qual se espalha por uma cidade e causa um grande colapso na vida das pessoas, fato que compromete as estruturas sociais. Hodiernamente, não longe da ficção, percebem-se aspectos semelhantes no que tange à espetacularização da violência pela mídia brasileira — uma questão que gera consequências — visto que a sociedade brasileira parece não enxergar os impactos nocivos desse problema. Sendo assim, percebe-se que o entrave abordado possui raízes amargas no país, devido não só à questão social mas também ao individualismo.
Deve pontuar, mormente, que a questão social é uma das consequências da problemática. Segundo o conceito de banalidade do mal, da filósofa alemã Hannah Arendt, quando uma atitude agressiva ocorre constantemente, as pessoas param de vê-la como errada. Sob essa égide, verifica-se que há, na atualidade, uma banalização da violência pela mídia brasileira, ou seja, certos canais de televisão utilizam cenas deploráveis a fim de aumentar a audiência, fato que, além de causar a normalização dessas situações (as pessoas tendem a considerar como “normais” tais acontecimentos), constitui um empecilho e contribui para a consolidação da vicissitude tratada.
Outrossim, o individualismo também é responsável por esse problema que persiste no Brasil. Consoante Auguste Comte, filósofo francês, o altruísmo é a tendência de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro. No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é o oposto do que o pensador prega, dado que a espetacularização do ódio, veiculado pela mídia, demonstra a falta de empatia por parte desses indivíduos, uma questão que também pode ser vista como consequência da problemática e que causa inúmeros transtornos para a sociedade.
Diante dos fatos supracitados, faz-se necessário, portanto, que sejam tomadas ações para resolver o impasse. Posto isso, cabe ás mídias televisivas — como formadoras de opinião pública — vigiar ao conteúdo exibido, sobretudo em horário nobre, por meio da revisão e retirada de trechos demasiadamente violentos, com o objetivo de tornar os cidadãos menos banais e mais altruístas. Assim, atenuar-se-á, em médio e longo prazo, os impactos nocivos do entrave e a sociedade alcançará a cura para a cegueira presente na obra de Saramago.