Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 23/03/2020
A obra cinematográfica “O abutre”, dirigida pelo ilustre Dan Gilroy, retrata a espetacularização da violência e seus consequentes comportamentais para as personagens envolvidas na distorção das notícias. Lamentavelmente, esse dilema transcende a arte e mostra-se presente na mídia brasileira quando grande parte da divulgação de tragédias é distorcida e danosa. Nessa apreensão, dentre os efeitos desse flagelo social, encontram-se a grave promoção de danos psicológicos e físicos ao telespectador e o estímulo indireto à criminalidade. Logo, é imperativa a discussão de tais pontos a fim de melhorar a vivência no país.
Convém ressaltar, a princípio, os efeitos negativos gerados na saúde pela exposição frequente à eventos violentos detalhados com a finalidade de aumentar a audiência. Nesse viés, assistir diariamente tais reportagens acentua os sofrimentos e problemas físicos do telespectador, como aumentar a tristeza, a ansiedade e o estresse, bem como a elevação da pressão arterial e o surgimento de arritmia cardíaca, conforme divulgou a EBC. Cabe ainda denunciar os danos à honra e à imagem de pessoas envolvidas em desastres nos quais a intimidade e o momento de aflição das vítimas são completamente invadidos pelos meios de comunicação, corrompendo-se, assim, o direito à privacidade desses cidadãos.
Paralelo a isso, existe também o incitamento à crimes por meio desse tipo irresponsável de divulgação de fatos. Sobre tal aspecto, a exibição minuciosa desses eventos horríveis pode, por vezes, servir de aulas para imitadores que desejam emular a perversidade representada em imagens ou vídeos. Outrossim, a intervenção desmedida dos canais de comunicação com a finalidade de expor vítimas e criminosos em tempo real pode motivar a postura do agressor, como foi demonstrado no documentário “Quem matou Eloá?”, pois o ex namorado e autor do sequestro sentiu mais motivação para manter o cárcere e os maus tratos às vítimas em virtude de toda a atenção nacional recebida.
Em suma, faz-se inadiável a tomada de medidas atenuantes aos efeitos abordados. Urge, portanto, ao Ministério Público, em parceria com o Ministério da Comunicação, criar um plano nacional para ampliar a fiscalização sobre ações midiáticas corrompedoras dos direitos civis. Tal programa deve ser materializado na divulgação via canais de televisão, rádio e redes sociais de uma propagando com o e-mail do MP, elucidando os brasileiros sobre como denunciar ao MP a difusão danosa de informes por canais de comunicação, objetivando otimizar a atuação desse poder na garantia dos direitos dos cidadãos. Destarte, será possível, de forma justa, eliminar a espetacularização da violência e seus consequentes.