Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 01/04/2020
A Tragédia é Audiência
Escrito e dirigido por Dan Gilroy, o filme O Abutre, de 2004, tem como protagonista Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), um cinegrafista amador que enxerga a possibilidade de ascender economicamente filmando cenas de crimes violentos para o noticiário de um telejornal policialesco. O título do filme correlaciona de maneira metafórica os hábitos da ave com os da imprensa sensacionalista: ambos sobrevivem de cadáveres. Posto isto, o longa traz como principal crítica a espetacularização da violência pela mídia e a banalização da morte, sendo estes problemas também presentes na realidade brasileira. Desse modo, medidas devem ser tomadas para evitar os efeitos prejudiciais dessa prática.
Primeiramente, sabe-se que o ser humano, desde muito tempo, se fascina por histórias e também pelo ato de contá-las, afinal, isso é uma das principais diferenças entre a espécie humana e os demais animais. Na Grécia Antiga, o sucesso das Tragédias Gregas foi grandioso, sendo elas marcadas por uma narrativa dramática e com final trágico. Na contemporaneidade, tais ficções perderam a sua popularidade para as fatalidades reais, agora contadas na televisão. Essa excessiva exposição à violência é extremamente preocupante, dado que, tais reportagens, ao explorar essa crueldade em troca de audiência, acabam estabelecendo um ideologia acerca da banalização da vida, além de influenciar psicologicamente os telespectadores com a concepção de um mundo caótico.
Além disso, a invasiva ação da imprensa nos cenários criminais, além de ser antiética ao aproveitar-se muitas vezes do sofrimento alheio, também dificulta o andamento das investigações criminais. Tal exemplo pode ser obtido no caso da jovem de quinze anos, Eloá, que foi mantida pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, em cárcere privado por mais de cem horas e posteriormente morta. A cobertura em tempo real do acontecido atrapalhou a negociação dos policiais com o sequestrador, uma vez que apresentadores de programas televisivos entraram ao vivo em contato com o criminoso através do telefone, além de despertarem no mesmo o prazer da fama, já que Lindemberg acompanhava pela televisão todo o caso.
Dessa forma, é necessário que medidas sejam tomadas para resolver o impasse. Cabe ao Ministério da Comunicação combater o excesso de exibições de tragédias em tais telejornais, através de um Marco Regulatório da Comunicação, regulando e estabelecendo limites para tais reportagens que veiculam imagens e casos violentos. Além de inserir na grade televisiva da TV aberta outros tipos de programas educacionais, com o intuito de geral conhecimento e impedir tal banalização da morte.