Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 26/03/2020

Segundo o pensador Habermas, a Modernidade trouxe diversos problemas ligados à irracionalidade. Nesse sentido, a mídia, de importante poder coesivo na sociedade contemporânea, acaba por fomentar essa falta de razão ao espetacularizar um dos principais males sociais: a violência. Tal atitude gera diversas consequências prejudiciais ao bem-estar coletivo, como a sobreposição de valores mercantis à vida humana e o aumento do sentimento de impunidade, que contribui para a perturbação da coesão social.

Primeiramente, é fato que o Capitalismo, como principal modelo econômico vigente, influencia diretamente o âmbito social. Nesse aspecto, a mídia, veículo diretamente ligado a esse sistema, busca lucrar com suas veiculações. Dentro disso, a espetacularização da violência, como forte gerador de imagens e audiência, torna-se uma verdadeira mercadoria, contribuindo, assim, para o que o sociólogo Max Weber chamou de “desencantamento de mundo”, fenômeno em que a mercadoria passa a ter maior valor que as relações humanas, situação que fere diretamente a integridade do ser, tendo como exemplo o que ocorreu no sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro, em que a necessidade invasiva de informar e espetacularizar o acontecido se sobrepôs a dar espaço para uma negociação segura, o que gerou, em seguida, um desfecho com a morte de vítima e sequestrador.

Em segundo lugar,  tem-se que as leis para punir certos crimes são brandas, fato este ainda mais propagado na mídia, o que incentiva, na população, uma desenfreada vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Tal desejo imediado, entretanto, acaba por, muitas vezes, impedir as pessoas de desenvolver um senso crítico antes de agir, erro que é intensificado pela velocidade que corre as informações nos meios de comunicação, especialmente com as “fake news”. Nesse cenário, diversos linchamentos acontecem, podendo tirar a vida de indivíduos inocentes. Sendo assim, a espetacularização acaba por influenciar esses atos criminosos, afetando a coesão social, fortemente defendida pelo pensador Émile Durkheim como principal condição para se ter uma sociedade saudável.

Portanto, é fundamental que o Ministério Público, juntamente às secretárias de segurança, realizem ações sociais, utilizando-se da própria mídia, por meio da divulgação de consequências da espetacularização da violência, como a morte de pessoas inocentes, visando a desenvolver um senso crítico e conscientizado na população. Ademais, o poder Legislativo pode fortificar leis que tratem de crimes relacionados à violência, aumentando penas, por exemplo, a fim de passar uma segurança à população e desincentivar o ciclo de violência provocado, indiretamente, pela mídia. Desse modo, não apenas a justiça, mas também a cidadania aliam-se à racionalidade para o efetivo bem-estar social.