Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 27/03/2020

O escritor francês Guy Debord, em sua obra “Sociedade do Espetáculo”, criticava a forma de que tudo na sociedade está envolvido por imagens e, sobretudo, tudo está mercantilizado. Tragédias, sofrimento e o luto começam a ter um valor capitalizado sobre os meios de comunicação. Essa situação, infelizmente, atinge a mídia brasileira, a qual também não ameniza a situações de violências (apenas as intensificam). Desse modo, é pertinente a indagação: afinal, qual as consequências da espetacularização da violência por essa mídia?

É fato que uma das principais consequências é a exposição excessiva das vítimas e dos agentes de tais atos, o que, não raro, atrapalha os processos policiais da ação. Em 2009, o caso de “Eloa”, menina sequestrada e refém do namorado, ficou famoso pelo excesso de exposição nos jornais e internet; até os dias atuais, muitos culpam a morte da jovem por essa espetacularização, que em treinamentos militares internacionais, ficou reconhecido como procedimentos que não se devem tomar em situações de risco. Logo, é papel da mídia regular a exposição os processos policiais, principalmente com reféns, para que apenas haja interferência no final do seu procedimento.

Entretanto, a exposição dos indivíduos não é o único efeito desse ato. Como já apontado pelo escritor francês, em “Sociedade do Espetáculo”, com a mercantilização da informação, há uma forte repercussão sensacionalista, e muitas vezes, isso acarreta em um pânico generalizado, e também  consequências em resultados nos processos penais/judiciais. Desse modo, pode ocorrer uma segregação de classe, pois pessoas de altas rendas e maiorias sociais podem ser beneficiadas, por possuírem maior poder de influência e financeiro. Tal situação é vista no filme libanês “O Insulto”, o qual há um papel fundamental da mídia para a resolução de um conflito étnico-religioso entre um palestino e um cristão, que acarretou em consequências para o processo penal. Assim, cabe ao Ministério Público e a Polícia Federal a fiscalização desses crimes midiáticos.

Portanto, as consequências causadas pela espetacularização da violência pela mídia brasileira são diversas, entre elas não só a exposição das vitimas e agentes, mas também a repercussão sensacionalista e as interferências policiais e judiciarias. Desse forma, cabe a mídia não expor procedimentos de risco, para que não haja interferências nas PMs, mantendo assim as vitimas em maior segurança. Também cabe ao MP e a Polícia Federal a fiscalização de notícias sensacionalistas, com o objetivo de causar maior compromisso com a veracidade e para que haja maior integridade de todos os agentes. Assim, conseguiremos talvez humanizar situações delicadas e violentas, e os efeitos causados pela mercantilização de imagens, como defendia Debort, serem reduzidos.