Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 20/03/2020

A liquidez e o imediatismo, que fazem parte da vida online fomentada pela utilização de redes sociais, atinge também a mídia, pois o jornalismo deixa de ser caracterizado como esfera capaz de gerar debates e reflexões para tornar-se atrativo pela sua criação de conteúdos que vão além da notícia, ou seja, conquistam a audiência pelo apelo excessivo a atitudes não civilizatórias e informações capazes de gerar emoções de diferentes tipos, principalmente a raiva e a sensação de impunidade dada aos autores de diferentes crimes. No Brasil, a espetacularização da violência dentro da mídia é também presente, gerando consequências como a banalização da vida e a falta de credibilidade no sistema judiciário (fomentando, assim, a justiça com as próprias mãos).

De acordo com Hume, acredita-se naquilo em que é visualizado e ouvido com constância. Assim, no momento em que a população é bombardeada pelo canal noticiário, diariamente, com notícias curtas que ceifam diversas vítimas com atitudes extremamente violentas, cria-se a sensação de que esse é o estado de normalidade da nossa civilização, e, consequentemente, a vida é banalizada. Dessa forma, o senso crítico é eliminado e a agressão passa a ser não só aceita estruturalmente, mas também justificável, como em diversos casos de feminicídio em que se discutem as atitudes da mulher e o agressor permanece em segundo plano.

Além disso, o imediatismo da notícia é diferente do tempo em que se leva para a conclusão do processo de culpabilidade do caso. Isso faz com que se noticie o crime de forma apelativa, mas dificilmente se noticie a sua conclusão na justiça, causando, além da circulação de possíveis informações erradas, a sensação de que aqueles que atuaram a margem do código penal brasileiro permanecem impunes. A consequência dessa conjuntura gera a descrença da população na esfera judiciária e a vontade de vingança por outros meios não legais - já que se acredita que, novamente, vive-se em um Estado sem leis.

Diante dessa conjuntura, a espetacularização de ações violentas pela mídia é capaz de gerar em nossa sociedade padrões de comportamento que se afastam do patamar civilizatório, gerando a banalização de agressões e da vida, além da incredibilidade no processo judiciário brasileiro junto ao fomento da justiça com as próprias mãos. Ações que são capazes de diminuir essa dinâmica são, primeiramente, escolhas mais criteriosas por parte da população para o aumento de audiência em canais voltados para a crítica e o respeito com a integridade da informação pois, dessa forma, a mídia apelativa não consegue mais se manter. Além disso, cabe ao próprio Sindicato Jornalístico incentivar ações mais éticas no exercício da profissão de seus filiados.