Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 18/03/2020

O episódio “Urso Branco” da série Black Mirror demonstra como o ser humano se satisfaz assistindo o sofrimento físico e psicológico alheio. De maneira análoga, a mídia brasileira mantém em pauta casos de violência ocorridos na sociedade, visando conseguir audiência em detrimento da investigação jornalística. E tal fato, afeta negativamente as pessoas envolvidas e o trabalho dos profissionais jurídicos.

De início, uma consequência da divulgação excessiva de crimes por fotos, vídeos e áudios, se dá pelo envolvimento familiar das vítimas e do transgressor. Assim como ilustrado na charge de Latuff, os momentos emotivos de parentes e amigos são mostrados pela imprensa. Também são feitas perguntas indelicadas às pessoas tristes e afetadas com o ocorrido. Entretanto, a mídia, sedenta por audiência, considera os questionamentos oportunos, pois o público deseja consumir emoções alheias ao invés de fatos concretos investigados e/ou concluídos através do trabalho jornalístico.

Em uma segunda análise, há a consequência estabelecida sobre os integrantes do Tribunal do Júri. Seus participantes caracterizam toda a sociedade brasileira no ato de julgar e recomendar a sentença do réu. É certo que tal serviço voluntário deve ser neutro de sentimentos, e valorizar as provas apresentadas, os testemunhos ouvidos e as conclusões da investigação policial. Sendo assim, as repercussões midiáticas interferem de maneira negativa nas decisões dos jurados, pois estes viram as notícias sensacionalistas divulgadas nos meios de comunicação.

Logo, a espetacularização da violência pela mídia no Brasil traz consequências negativas para toda a sociedade. Portanto, cabe ao Ministério da Justiça limitar o acesso e o compartilhamento de informações pela imprensa televisiva, digital e radialista, até o desfecho total do caso. Para isso, deverá manter o processo judicial e os nomes dos demais envolvidos, como advogados e delegado em sigilo; visando que a justiça seja feita sem influência sentimental. Também serão preservadas as vítimas, as testemunhas, o criminoso e os familiares, pois suas imagens e momentos emotivos não veicularão em lucro de terceiros. Bem como o trabalho do Tribunal do Júri poderá acontecer de forma concentrada em fatos e evidências concretas estabelecidas somente na investigação científica de profissionais competentes. Em suma, a violência será tratada de acordo com as leis vigentes e profissionais neutros, e não como espetáculo em cartaz pelos meios de comunicações.