Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 19/03/2020

O quanto a espetacularização compromete a democracia

A nova tecnologia, símbolo maior da Revolução Digital, impôs recursos inestimáveis à sociedade brasileira, assim como cobrou desafios de igual magnitude às suas mais distintas ramificações, em particular ao jornalismo. Assim, a espetacularização da violência surge, ao mesmo tempo, como um problema próprio de um momento histórico do Brasil e um espelho de parte do jornalismo televisivo. Mais que isso, ela se caracteriza como, de fato, um problema por proporcionar a distorção da opinião pública, comportamento totalmente nocivo ao regime democrático.

Antes de qualquer consideração prévia, vale considerar as suas origens, relativamente, recentes. Seu início remete à esta década (2011-2020), quando, em especial, o noticiário policial constata que a narrativa das suas reportagens poderia, caso seguisse um modelo bem traçado, conquistar parte generosa do seu público potencial e assegurar níveis relevantes de audiência. Como, ao se descobrir um “modelo garantidor de IBOPE”, a direção dos programas não se furtaria à segui-lo, nasce, então, um novo fazer jornalístico: o “espetacularista”. Este, à saber, consiste em encaixar notícias, tanto quanto possível, dentro de um enredo que envolva impunidade, crueldade e ineficiência do Estado, sempre valorizando os valores da família tradicional e a polícia militar. Em resumo, uma fórmula sem erros. Cria-se, assim, uma realidade disforme para o telespectador comum.

Em outras palavras, a sala de estar da classe média se tornou a própria caverna de Platão, agora, no entanto, com um quê de modernidade; pois, analogamente ao que se sucede na alegoria platônica, na qual escravos aprisionados estão limitados a conhecer a realidade por meio das sombras que se formam nas paredes da caverna, entendidas pelo filósofo como ilusões que os distanciavam da verdade, o brasileiro está igualmente preso pelo senso comum em seu sofá, de modo a interpretar o mundo por meio da realidade paralela proposta pela TV. Consequentemente, em vista do sensacionalismo, marca registrada desse conteúdo, há o incorporamento das soluções simplistas, como “a solução da violência é o enrijecimento das leis”, por exemplo. E, enfim, eis aqui o problema.

Portanto, é imperativo uma reação das associações jornalísticas e, também, da sociedade para reduzir os danos, ou, quiçá, os extinguir. Deve-se propor ao Congresso, e não há outro meio senão um projeto de lei conjuntamente escrito por jornalistas e cidadãos, em que se regularize essa atividade jornalística de modo a, nesse caso, garantir a liberdade de expressão e a responsabilidade pelo tratamento com a notícia.