Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 25/03/2020

Na obra “Genealogia da Moral”, Friedrich Nietzche aborda o caráter mutante e horripilante do mundo e afirma que não existe nele um estado de permanência e harmonia. Analogamente ao contexto brasileiro hodierno, o pensamento de Nietzche descreve as relações sociais, marcadas por horrendos atos de violência e desarmonia. Nesse âmbito, a problemática torna-se preocupante na medida em que ocorre a espetacularização de atos violentos pela mídia, o que resulta não só na banalidade do mal, como também na incapacidade de reflexão crítica por parte do espectador.

Nesse sentido, o exagero do meio midiático em propagar detalhes de atos cruéis contribui substancialmente para o desenvolvimento de um sentimento de banalidade em relação às perversidades. Nessa conjuntura, a filósofa alemã Hannah Arendt, em seu conceito de banalidade do mal, definiu que as atitudes cruéis se tornaram comuns entre os indivíduos modernos, o que por conseguinte, torna o convívio social caótico. Desse modo, o cenário denunciado por Hannah reforça a ameaça que publicações jornalísticas irresponsáveis representam para o meio social ao estimularem a ideia de banalização dos atos horrendos. Isso posto, não é razoável que a mídia seja imprudente ao ponto de corromper a vida social brasileira.

Além disso, a espetacularização da crueldade pela mídia brasileira retira dos indivíduos a capacidade de reflexão crítica, já que os meios de comunicação tornaram-se excessivos quanto à divulgação de tais práticas. Dessa maneira, assim como o escritor francês Guy Debord definiu que as relações sociais são medidas por imagens e padrões - o que chamou de sociedade do espetáculo- o esteriótipo de violência veiculado no Brasil faz dos cidadãos verdadeiros espectadores dessas atitudes. Assim, Debord é assertivo em sua definição, pois o jornalismo acaba por corromper seu papel de promotor de debates e reflexões - essência da mídia- e gerar verdadeiros espectadores bestificados e desprovidos de opinião crítica. Visto isso, é lamentável comprovar a realidade descrita pela obra “Genealogia da Moral”, já que o problema social é evidente: o caráter horripilante dos suportes midiáticos.

Portanto, diante da espetacularização da maldade e suas consequências, é preciso mitigar essa realidade. Para isso, as escolas devem estabelecer o ensino semanal de cidadania, nas turmas de ensino fundamental. Com isso, é preciso que educadores especializados ensinem de forma didática sobre princípios de convívio social que alertem sobre os perigos da violência, a fim de formar cidadãos imunes á banalidade do mal e dotados de reflexão crítica. Destarte, é possível viver em uma sociedade que faça valer a situação mais desejada por Nietzche: o estado de permanência e harmonia.