Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 26/03/2020
Na obra “1984”, George Orwell com o chamado “dois minutos de ódio” - espetáculo diário para proferir ódio - faz alusão à banalidade da violência, de forma que através dela, os personagens fictícios não notem a opressão social e política sofrida. Paralelamente, em uma mídia marcada pelo imediatismo, também ocorre a espetacularização da violência, a qual juntamente com a sensação de impunidade presente na sociedade brasileira, consequencia em justiçamentos e na banalização das formas de agressão.
A era do meio técnico-cientifico-informacional tem sua gênese na instantaneidade dos fluxos de informações, que geram capital através de audiência. Todavia, tal instantaneidade limita a reflexão moral do que é transmitido pela imprensa, como em programas como Cidade Alerta e Brasil Urgente, que ao tratarem situações de violência em detalhes diariamente, consequenciam na formação de uma sociedade brasileira estruturada na normalização de resoluções violentas.
Com o descrédito nas instituições democráticas, o sentimento nacional de impunidade se torna crescente no Brasil. Tal sentimento combinado à banalização da violência, causada pela espetacularização da mídia, gera um poderio para justiçamentos da população, como linchamentos, massacres e formação de milícias, que também serão noticiados, consequenciando na manutenção da reprodução das formas de agressão.
Em síntese, é evidente que a espetacularização da violência gera mais violência, como na obra “1984”, de forma a se tornar um problema do Estado. Logo, cabe ao Ministério da Cultura regular, através de ordenamento legislativo, as informações de caráter explícito e instrutivo, bem como cabe ao Ministério da Educação instigar um jornalismo responsável por meio da inclusão de matérias que tratem do assunto nas bases curriculares das graduações relacionadas à mídia, a fim de diminuir tais consequências no Brasil. Dessa forma, os “dois minutos de ódio”, ficarão apenas na distopia de George Orwell.