Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 30/03/2020
O livro “Todo dia a mesma noite” - de autoria da jornalista Daniela Arbex -, ao narrar os momentos que antecedem e sucedem o trágico incêndio da Boate Kiss, ocorrido no ano de 2016, denuncia os abusos cometidos pelos veículos de imprensa ao invadirem a privacidade dos familiares das vítimas e transformarem o ocorrido em um espetáculo digno de grandes produções cinematográficas. Assim, hodiernamente, muito se tem questionado acerca da espetacularização das notícias, por parte da mídia brasileira, e suas consequências para a sociedade nacional. Nesse contexto, convém o emprego de um olhar crítico de enfrentamento acerca do impasse.
A princípio, o sociólogo francês Guy Debord afirma que os indivíduos da contemporaneidade estão imersos em uma “Sociedade do Espetáculo”. A esse respeito, em seu livro de nome homônimo, o pensador afirma que tal estágio é atingido quando as relações sociais - sejam elas interpessoais ou políticas - passam a se basear no acúmulo e envolvimento de imagens para se tornarem reais e verídicas. Nesse contexto, ao perceber essa urgência da população por imagens,a mídia acaba por aproveitar-se dessa precisão para conquistar maiores audiências, veiculando notícias e imagens de modo a parecer um espetáculo e ultrapassando, muitas das vezes, a linha tênue existente entre necessidade de informação e sensacionalismo. A exemplo, cita-se o Caso Eloá, onde uma jornalista utilizou da linha telefônica de negociações policiais para entrevistar o sequestrador, conforme o G1.
De outra parte, nota-se que, a veiculação de notícias - especialmente fatos violentos - de forma tão ostensiva e fantástica, por parte dos jornais brasileiros, pode acarretar significativos danos ao desenvolvimento social e comportamental da população nacional. Consoante o recente estudo publicado pela associação estadunidense “American Medical Association”, a constante e excessiva exposição da população à violência nesses meios de difusão de informações propicia o surgimento de um comportamento agressivo nos indivíduos, prejudicando sua saúde mental e gerando uma espécie de banalização do mal coletiva - conceito que caracteriza sociedades em que práticas maldosas, como a invasão da privacidade de outrem em troca de cliques, tornam-se comuns aos olhos do tecido social.
É evidente, portanto, a urgência de medidas que visem mitigar o revés. Destarte, cabe ao Legislativo, a gênese de um Marco Regulatório da Mídia, onde a liberdade de impressa continuará a ser garantida, porém, serão adotadas restrições que impeçam a livre exibição de cenas de violência demasiada, impedindo, assim, a banalização do mal e da morte no território nacional. Por fim, cabe, ainda, ao Ministério da Cidadania, a propagação de campanhas que visem sensibilizar a nação acerca dos malefícios que o consumo da violência espetacularizada pode fomentar em sua vida.