Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 23/03/2020

Faz parte da rotina da família brasileira reunir-se à noite e acompanhar o noticiário, onde a maior parte do período de duração é dedicado a noticiar os crimes cometidos no país. Entretanto, nos últimos anos o que vem chamando atenção, além dos índices de violência crescendo disparadamente, é a espetacularização dos crimes cometidos que podem interferir na ação da justiça.

O Brasil é um país violento: essa é a imagem refletida no exterior e uma realidade vivida por todos brasileiros. Segundo dados da ONU divulgados em 2019, entre os países sul-americanos mais violentos, o Brasil ocupa a segunda posição, ficando atrás apenas da Venezuela que passa por uma grave crise política. É de função da imprensa divulgar à sociedade os crimes ocorridos, entretanto, a forma maçante aos quais vêm realizando essa função reforça a ideia de impunidade e encoraja criminosos a copiarem o decorrer dos crimes narrados detalhadamente; além do fato que o vale tudo por audiência vem causando danos no decorrer de investigações e ações policiais.

Durante o fim da primeira década do ano 2000, São Paulo registrou o sequestro com o maior tempo de duração do Estado. Eloá Cristina foi sequestrada por seu ex-namorado, além da fisionomia desesperada da menina na janela do seu apartamento pedindo calma à sua família, o que chamou atenção foi a conduta da imprensa, que cobriu massivamente ao caso. A glamourização do criminoso veio de todas as emissoras, entretanto, uma ligação que ocupou a única linha de comunicação entre o criminoso e a polícia, veio de Sônia Abrão, uma jornalista da RedeTv, ato condenável em busca da audiência, que, aliado a outros erros, ocasionou na morte da vítima.

Diante de dados e situações expostas anteriormente, fica claro que a imprensa vem errando em sua conduta. É de total necessidade que a Ordem dos Jornalistas, que age junto aos Três Poderes, fiscalize o exercício da profissão, gerando punições a ações repugnantes como a espetacularização do sofrimento, mas sem desrespeitar a liberdade de imprensa. Além da formação de um evento ao final do ano, com uma banca formada por representantes do jornalismo não ligados ao governo e reconhecidos pela prática ética da profissão, que premiará jornalistas que cumpram seu papel na sociedade, que é passar a informação limpa e verdadeira, sem glamourizações e respeitando ao ser-humano que está passando por um momento difícil.