Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 25/03/2020
No ano de 2008, o sequestro e assassinato de Eloá Cristina por seu ex-namorado foi manchete em diversos jornais. Enquanto o cárcere acontecia, o sequestrador tinha total acesso aos passos que a polícia dava, pois grande parte dos telejornais divulgavam essas informações ao vivo. Nesse contexto, fica claro que a intenção da mídia não é simplesmente informar a população, mas sim utilizar-se de catástrofes violentas para que obtenha cada vez mais audiência sem se preocupar com as consequências, que, assim como no caso citado, podem levar pessoas inocentes à morte.
Após uma década, é perceptível que essa situação perdura não só pelos jornais, mas também pela internet, que é a principal forma de propagar informações, sejam elas verdadeiras ou não. De acordo com a especialista em desenvolvimento humano Rebeca Toyama, 90% das decisões são influenciadas pela emoção, o que fortalece o perigo presente na divulgação de notícias que têm como objetivo comover a população, pois, com isso, torna-se possível que pessoas queiram “fazer justiça com as próprias mãos”, o que vai contra o Estado de Direito.
Diante desse panorama, não há um órgão regulador que faça a fiscalização e a devida punição dos meios de comunicação que utilizam-se da vulnerabilidade de terceiros para benefício próprio. Enquanto não existir padrões de entrevistas que respeitem a integridade tanto do entrevistador quanto do telespectador/leitor, não é visível um fim na exploração principalmente da pessoalidade das vítimas.
Em suma, faz-se precisa a criação, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de um órgão regulador composto por psicólogos e advogados especializados em casos de coerção social. Esse órgão seria responsável por garantir, principalmente, a integridade das pessoas envolvidas em notícias jornalísticas para que não aconteçam mal-entendidos nas ruas. Já em relação às punições, o mesmo seria habilitado a identificar quando uma reportagem ou notícia agride ou incentiva outras pessoas a agredir os direitos de alguém.