Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 27/03/2020

No filme " O Abutre" são expostos os dilemas de um jornalista que se aproveita de situações trágicas para obter fama, mesmo em detrimento de outras pessoas. Analogamente à ficção, vê-se no Brasil atual a espetacularização da violência afetar de modo nefasto a vida da sociedade, na medida em que promove o desrespeito aos sentimentos alheios, bem como a banalização da barbárie. Destarte, urgem análises das consequências desse cenário a fim de direcionar e de aplicar intervenções sociais.         Em primeira análise, é importante salientar o pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant para compreender as raízes morais dessa problemática. Segundo tal pensador, para um bem viver mútuo — uma vida mais ética—, é fundamental que as pessoas não sejam utilizadas como um meio para alcançar quaisquer objetivos, mas sim serem um fim em si mesmas. Diante desse conceito, é notória a falta de ética por parte da mídia que frequentemente usa o sofrimento alheio como meio para obter audiência, ou seja, lucro. Como reflexo, os indivíduos envolvidos nesse " espetáculo" são constrangidos pelas filmagens e não têm nem a sua privacidade nem o seu luto respeitados.

Além disso, ao expor a violência de modo sensacionalista, a mídia contribui para a banalização da tragédia. Nesse viés, implicando recursos típicos de produções cinematográficas a fim de chocar a população, a mídia passa as informações de forma excessivamente parcial e, por conseguinte, projeta toda a culpa nos supostos " criminosos", muitas vezes antes de serem julgados. Como reflexo dessa substituição do fazer jornalístico pela função de juiz, a mídia nacional coloniza o imaginário do consumidor e desperta o ímpeto de ódio na população, a qual passa a reproduzir esse ato, na medida em que compartilha imagens comprometedoras nas redes sociais, ou promove linchamentos virtuais ou físicos.

Isto posto, torna-se notória a necessidade de de ações direcionadas a coibir as consequências do cenário evidenciado. Para tanto, as instituições de ensino devem promover aulas interdisciplinares acerca da mídia contemporânea, por meio de palestras semestrais ministradas por professores de filosofia e atualidades. Esses discentes serão responsáveis por explicitar os dilemas éticos e as consequências de transformar a violência em mercadoria, com o fito de interromper a reprodução dos julgamentos midiáticos por parte da população. Desse modo, gradualmente os programas que tentarem vender tal formato de entretenimento não vão encontrar consumidores, uma vez que esses serão emancipados intelectualmente pelo letramento ético.