Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 26/03/2020
O episódio White Bear, da série Black Mirror, apresenta uma situação distópica, na qual uma mulher é torturada enquanto outros filmam e assistem sem fornecer qualquer ajuda. Sob esse viés, com o crescimento das mídias sociais, a popularização dos telejornais policiais e a romantização de crimes, a espetacularização da violência já não parece uma realidade tão distópica assim.
Em princípio, é necessário pensar que a espetacularização da violência também é uma forma de propaganda dela. “A vida imita a arte”, frase emblemática de Oscar Wilde, introduz uma dinâmica fácil de perceber nos dias de hoje: cada vez mais vemos propagandas em meios artísticos. Em resumo, por conta do grande alcance televisivo e influência na vida da população, empresas percebem o potencial de propagação e fazem ações de marketing que se aliam com a trama de novelas, por exemplo. Sendo assim, há lógica em pensar, que espetacularizar um crime, torná-lo algo icônico, pintar o infrator como um anti herói, fará com que outros fiquem inclinados a repeti-lo.
Ademais, o grande aumento e popularização de telejornais policiais faz com que a resolução de crimes seja comprometida. Em 2008, o sequestro de Eloá chocou o Brasil e até hoje é conhecido por inúmeras falhas da polícia e seu desfecho trágico. Todas essas sequências de erros motivaram Livia Perez a fazer o documentário “Quem matou Eloá?”, apresentando um prisma diferente do mostrado nos jornais à época. Um dos pontos levantados pelo documentário, é o fato do episódio ter tido cobertura 24 horas, o que permitia o sequestrador saber exatamente das ações da polícia, e, assim, se preparar para elas, contribuindo para a falha no salvamento da refém.
Destarte, fica clara a necessidade de intervenção. Em primeiro plano, é necessário que a população tenha consciência dos danos causados por esse tipo de entretenimento. Para isso, esforços teriam que surgir de várias áreas sociais: as escolas poderiam ministrar palestras e mediar debates sobre o assunto; as grandes empresas de mídias sociais poderiam fazer ações de marketing advertindo a população; o governo, através da SECOM, poderia fazer campanhas televisivas. Com essa consciência adquirida, a população poderia promover boicotes a esse tipo de conteúdo, não assistindo-o, fazendo com que sua produção seja desestimulada.