Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 27/03/2020

A cobertura de uma tragédia, ainda que ela evoque horror e sofrimento, passa pela avaliação do seu valor de mercado, o que em outros termos significa se uma notícia é ou não vendável. Apesar, da existência de um código de ética do jornalismo, os jornais o ignoram e optam por postar informações que chocam o público. Com a busca desenfreada por audiência, muitas pessoas sofrem danos morais e psicológicos, e muitas vezes não recebem o apoio necessário nessas situações, podendo levar à morte. Sendo assim, torna-se imprescindível que os órgãos competentes auxiliem na preservação da imagem principalmente das vítimas.

De acordo com Rafael José dos Santos, Doutor em Ciências Sociais, em seu artigo sobre midiatização da tragédia, citando inclusive o caso da Boate Kiss, a midiatização espetacular (e sensacionalista) joga com as emoções do público, mobiliza sentimentos difusos, explora a tragédia até que se decida a mudança paulatina de pauta. Redigir textos cuja matéria e manchete sejam alarmantes, com exposição de imagens chocantes e de violência extrema ou ainda bombardeando os leitores (ou telespectadores) com notícias a todo instante, também se enquadra na prática sensacionalista de noticiar.

A tragédia midiatizada não é real e concreta, nela, ocorre o foco em alimentar a população com um espetáculo virtual que rompe com a rotina cotidiana. No jornalismo escrito, é imprescindível o uso da imagem para reforçar o que está sendo dito no texto. Entretanto, uma constante no corpo dessas matérias é a utilização de imagens que expõem as vítimas, o ambiente do acidente e de seus familiares em situação de desespero, desolação e desamparo. Tais fotos exploram exaustivamente a imagem do sofrimento. Outra forma comumente utilizada, é as menções à agentes políticos e figuras públicas sem nenhum vínculo com o acontecimento e com as vítimas, a fim de captar a atenção do leitor.

Dado o exposto, é visível na sociedade atual, uma imprensa que não se presta em informar, mas sim em satisfazer as necessidades do público ou escandaliza-lo, fazendo o uso incessante de técnicas que ferem a esfera íntima das vítimas e seus familiares e amigos. Dessa forma, cabe ao Sindicato dos Jornalistas Brasileiros, fazer jus ao Código de Ética, a fim de determinar que os jornais parem de obrigar seus repórteres a invadir a vida privada de vítimas de tragédias e que parem de utilizar elas como protagonistas de uma história que não lhe convém.