Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 29/03/2020

No livro “1984” de George Orwell, é representado um futuro distópico onde os personagens são obrigados a reservarem, na Semana do Ódio, dois minutos de seus dias para assistirem uma propaganda, exibida intencionalmente para criar repulsa entre os cidadãos pelo inimigo do Estado. Fora da ficção, é comum ver em telejornais momentos dedicados à narração de crimes, como assaltos, estupros e homicídios, sem o devido cuidado para com quem assiste. Logo, faz-se necessário a análise do quadro atual, visto que, a mídia contribui para um cenário de histeria coletiva e alimenta o jornalismo voltado para o sensacionalismo, ao invés de formar cidadãos críticos.

A priori, vale ressaltar que é dever da mídia noticiar, informar e comunicar o cidadão brasileiro sobre os principais acontecimentos da nação. No entanto, as pessoas estão sendo bombardeadas por notícias relacionadas à violência a todo momento, seja na televisão ou na internet. Conforme Émile Durkheim, o indivíduo está constantemente submetido a “códigos” imperativos e coercitivos impostos pela sociedade. Sob esse viés, a mídia possui grande responsabilidade na formação do indivíduo e por isso, é extramente importante o tipo de conteúdo veiculado, haja vista que, a frequente exposição de crueldades, incentiva a justiça feita pelas próprias mãos e corrobora para uma conjuntura envolta do medo, revolta e insegurança.

A posteriori, é notável que os meios de comunicação utilizam recursos sensacionalista para ganhar audiência e captar a atenção do público. Ademais, o recorrente apelo a notícias de crimes brutais justifica-se tendo em vista que, aliado ao exagero dos fatos, garante uma maior notoriedade perante os telespectadores. A esse respeito, no antigo Império Romano, líderes políticos utilizavam do pão e circo para promover lutas de gladiadores que só acabavam quando um deles morria, a fim de entreter e conquistar o apoio da plebe. Paralelamente, esse é o objetivo da indústria cultural para os pensadores da Escola de Frankfurt: obter lucro e mantar o sistema econômico vigente a seu favor. Com efeito, a indústria produz reportagens com o foco no consumo, atentando-se a temas de repercussão social.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Para mitigar as consequências da espetacularização da violência na mídia brasileira, urge que o Ministério Público Federal, por meio de decretos, limite o número de casos noticiados envolvendo crimes violentos na televisão e na internet, com o intuito de reduzir a exposição dos cidadãos à crimes impetuosos e torná-los críticos ao sensacionalismo exacerbado que a mídia se utiliza para certificar o lucro. Somente assim, será possível combater os interesses da indústria midiática e não agravará a fúria das pessoas, como acontece no livro “1984” na Semana do Ódio.