Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 29/03/2020
Nos últimos anos, é notável a ascensão, na mídia brasileira, de um modo peculiar de transmissão de notícias, caracterizado pelo apelo às emoções do público e ao sensacionalismo na divulgação de informações, principalmente aquelas relacionadas a atos violentos. Essa tendência no jornalismo brasileiro, que possui um verniz antiético e é motivada pela busca de audiência, não é saudável para a sociedade, pois prejudica o bem-estar da população e o bom funcionamento da Justiça brasileira, propagando o medo e a revolta e gerando uma cadeia de reações problemáticas e inadequadas ao combate da criminalidade.
Um dos princípios que regem o sistema jurídico brasileiro é o da presunção da não-culpabilidade, que está formalizado na Constituição brasileira e denota que o acusado de um crime só pode ser condenado após ser julgado de acordo com os ditames do devido processo legal. Diante disso, ao propagar as notícias apelando para o emocional do público, emitindo juízos de valor e atiçando as massas com frases de efeito, os programas televisivos, por vezes, prejudicam a justiça brasileira: casos de linchamento são bastante corriqueiros no Brasil e, até mesmo, glorificados. Dessa forma, com a violência sendo utilizada como resposta para a violência, há a intensificação da sensação de insegurança na população, culminando em uma espécie de barbárie.
Na Criminologia, ciência interdisciplinar que estuda as causas da criminalidade e as formas de combatê-la, há o estudo da teoria do contágio, que denota a forma como, dentro de uma multidão, um indivíduo, assumindo o papel de anônimo, é capaz de sucumbir ao comportamento da massa. Isso explica porque dentro de uma sociedade que consome notícias divulgadas de forma espetacularizada e tomada pelo sentimento primitivo de fazer justiça pelas próprias mãos, podem ocorrer linchamentos. O caso do linchamento de Fabiane de Jesus, dona de casa que foi confundida pela população da cidade de Guarujá, no litoral paulista, com uma sequestradora de crianças que teve a foto divulgada nas redes sociais, tornou-se emblemático: com o desrespeito ao devido processo legal, ocorreu a morte de uma inocente, e as pessoas que se colocaram como justiceiras, foram, de fato, criminosas.
Diante disso, é necessário que o Poder Legislativo produza leis de caráter regulatório, para que o jornalismo seja feito de forma imparcial e ética e distancie-se do papel incitador de violência e medo, passando a exercer, de fato, uma prestação de serviço, como pretende fazer. Além disso, é ideal que haja uma conscientização maior da população acerca das leis e do sistema processual brasileiro, através de campanhas publicitárias realizadas pelo governo e da inserção de debates e seminários sobre o assunto nas escolas, para que a justiça possa ser cobrada pela sociedade de forma adequada.